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Pasta Joia Review - 26

Pretinhos básicos  27 de dezembro de 2016 Há coisas que se consagram pela eficiência, pela simplicidade e pela praticidade no uso cotidiano. Quase sempre na cor preta, certos objetos presentes no passado de quem passou dos 40 se eternizaram nos corações e parecem pedir para voltar a fazer parte da vida dos seus donos. O exemplo mais clássico é, para as mulheres, o tal tubinho preto, aquele vestidinho coringa que derruba a dúvida cruel diante do espelho, instantes antes de sair para o compromisso noturno. Outro exemplo, agora para os homens, era o sapato preto 752 da Vulcabrás. Era o pretinho básico de todos nossos pés de garotos que estudavam no Colégio Padre Curvelo e, anos depois, no começo de nossas carreiras profissionais. Esse e seus equivalentes eram o calçado oficial para cerimônias. E para deixá-los bonitos e apropriados, graxa neles! Tinham de estar sempre limpos e brilhando. Podíamos até levá-los ao engraxate, geralmente associado ao barbeiro, mas também tí...

Pasta Joia Review - 25

Uma roseira chamada Hebe  3 de Fevereiro de 2017   Usei óculos 3D há 40 anos! Sim, foi com o estereoscópio de tia Hebe que experimentei a sensação visual de profundidade em superfícies planas, olhando pares idênticos de fotografias antigas de praças da Europa. As lentes centenárias da armação metálica, contornada por flores em relevo, me conduziam à imersão tridimensional preto e branco. Imagens sublimes, realidades virtuais e mundos distantes eram algumas das paixões da cândida dona do artefato. Em Curvelo, a irmã de minha avó materna dedicou a maior parte da sua longa vida à Igreja Católica, à família e às rosas – vegetais, artesanais e místicas. Modista e florista, Hebe rumou para a eternidade solteira e sem filhos, mas deixando extensa e primorosa obra em tecidos e fios. Costurando, tecendo e cultivando pétalas, ela aplacou persistente enxaqueca e um rosário de lágrimas vertidas após duas doloridas decepções amorosas colhidas nos tempos de moça. Mestra de frivoli...

Pasta Joia Review - 24

Fidelidade canina  13 de Fevereiro de 2017   Ouvi esta história triste numa fila de banco, lá na agência Savassi do então ABN Amro Real. Vou resumi-la a partir do relato que ouvi de um casal à minha frente. Seu Orlando era um paciente terminal. O câncer alojado em seu fígado estava em estágio avançado e ainda se espalhava. O fim de seu longo curso final era apenas uma questão de tempo. Pouco tempo. Meses, talvez semanas. Mas a maior tragédia para esse velho rabugento era saber que, embora viva rodeado de familiares – mulher e enteados –, não tinha deles qualquer carinho ou atenção. Esses gestos, justamente os mais valiosos em momentos como o que ele miseravelmente atravessava, não estavam presentes. Restava então remediar a dor com uísque, ao ritmo de uma garrafa a cada 12 horas. E o ancião alcoólatra só encontrava carinho e atenção verdadeiros e necessários nos seus quatro cães. A fidelidade canina foi o resquício de humanidade oferecido a esse pobre diabo branco. N...

Pasta Joia Review - 23

Ianques, welcome!  21 de Fevereiro de 2017 Eles estão entre nós há décadas, fazendo o bem. São voluntários e filantropos americanos que deixaram o conforto de seus lares para se dedicar à saúde, à educação e ao empreendedorismo de milhares de mineiros do interior e das áreas carentes de Belo Horizonte. Infelizmente a histórica birra latino-americana com o Tio Sam impediu análises neutras e profundas do papel desempenhado pelas bem-sucedidas parcerias beneficentes entre Minas e Estados Unidos. Testemunhei desde menino situações nas quais os enviados da nação mais rica do planeta fizeram a diferença, seguindo a máxima de ensinar a pescar em vez de simplesmente dar o peixe. Presenciei ainda figuras estrangeiras de clubes de serviços, de ONGs e de agências governamentais promovendo aqui sinceras e duradouras amizades. Meus familiares e eu somos uma prova disso. Em 1964 se hospedaram na pensão de Tia Calina, em Curvelo, duas americanas e um americano, mandados por Washingt...

Pasta Joia Review - 22

Meu pé de manga-pequi  3 de Março de 2017 Foi em torno de uma frondosa mangueira que as minhas reinações de menino se deram. Por vários anos encontrei sob a sombra daquele grande pé de manga-pequi o lugar ideal para brincar, fantasiar e viver as coisas boas da infância. Esses meus momentos felizes compartilhados por dezenas de amigos de Curvelo foram testemunhados – e até mesmo proporcionados – pelo colosso plantado no meio do quintal. Sobre os galhos principais da árvore gigante tínhamos postos elevados de observação. Para debaixo do seu grosso tronco corria a garotada quando a chuva pesada desabava repentinamente. Ela também se convertia no abrigo mais confortável para tardes escaldantes e no ponto cotidiano de animados encontros para brincadeiras e prosas ao ar livre. No caule rugoso dela grafávamos símbolos secretos, estilo coração de namorados flechado por cupido. Para mim em particular, a velha mangueira era uma confidente, tal qual fora o pé de laranja-lima para o ...

Pasta Joia Review - 21

Sabores vespertinos  13 de Março de 2017   Lá no miolo de Minas o povo cultivava uma cerimônia alternativa à do britânico chá das cinco. Uma hora mais cedo servíamos a chamada merenda na principal mesa da casa. Nas tardes quentes e fagueiras daqueles anos 70 e 80 a mãe (ou a empregada) convocava a meninada para comparecer ao desjejum vespertino. A gente vinha correndo para comer pãozinho francês, pão e biscoito de queijo, pão sovado, bolo de fubá, queijo branco, requeijão e geleia de mocotó. Para completar a farta mesa à nossa espera com uma toalha xadrez estavam manteiga de sal em barra e outras delícias como bolinho de chuva e o enigmático biscoito de amoníaco, nas suas mais variadas formas. Todas essas iguarias eram regadas a leite de vaca tirada do saquinho e um café doce coado no pano minutos antes. Não existe ritual mais mineiro do que essa comilança entre o almoço e o jantar. Aquele altar para a culinária do interior tinha xícaras de porcelana pintadas que fum...

Pasta Joia Review - 20

Adoráveis gambiarras  21 de Março de 2017   Os longos períodos de inflação crônica e de barreiras à importação de artigos de consumo impuseram o teste definitivo para nosso conhecido jogo de cintura. Nos lares mineiros dos anos 1970 e 1980, praticávamos uma peculiar cultura de improviso, compartilhada pelas classes de renda baixa e média. A lembrança de nossas adoráveis e cotidianas gambiarras nos dias atuais intriga as novas gerações. Vejamos algumas. O primeiro quebra-galho que me vem à mente é o da palha de aço na antena da televisão, para melhorar a qualidade da imagem. Essa tecnologia popular funcionava porque ampliava a recepção de sinais. Menos efetivo, mas mais curioso, era o artifício de colocar uma placa de acrílico colorido em frente da tela do aparelho “preto e branco” para que ele parecesse ser “em cores”. Era o tempo dos pinguins sobre a geladeira e de outros mimos domésticos tidos agora como incomuns. Aceitávamos com naturalidade uns recursos...