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Mostrando postagens de abril, 2026

Uma galáxia na cabeça

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  Desde a simplicidade de uma placa de “aberto” na porta de uma loja até a densidade monumental de Guerra e Paz , de Liev Tolstói, a linguagem escrita é o máximo da nossa expressão. Independentemente da forma, toda escrita nasce de um sistema complexo de impulsos elétricos que percorre bilhões de células nervosas da nossa massa cinzenta. O quilo e meio de cérebro humano, descrito por cientistas como a obra mais engenhosa e sofisticada do planeta Terra, levou milhões de anos para ser construída e refinada. É, literalmente, uma galáxia que carregamos dentro da caixa craniana. Apesar disso, há quem ache que atravessamos tempos de incerteza para essa maravilha natural em nossas cabeças. Com a ascensão meteórica da Inteligência Artificial (IA), surgem rumores de uma substituição avassaladora do ato de raciocinar, especialmente o de escrever, pela automatização. O espírito do menor esforço, a busca pela velocidade e o desejo de parecer mais eficiente criam uma ilusão de que podemos t...

O pequinês namoradeiro

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Na Curvelo (MG) dos anos 1970 e 1980, a nossa vida corria calma, simples e envolta em poeira. Os animais de estimação não conheciam os pet shops ou rações caras: viviam do que a cozinha oferecia e do puro afeto. Era um tempo de cuidado rústico dos bichos de casa, dourado na convivência. Os cães, sentinelas fiéis em portas e quintais, reinavam absolutos. Lembro-me de Kojak, o pequeno vira-lata valente de Dona Arminda, a minha segunda mãe. Preto e branco, ele latia para qualquer carro, até o dia em que o destino foi mais veloz e um motorista o atropelou, tirando um pedaço do coração da tutora.  Meus pais, receando a dor dessa despedida, nos negaram cães. Temiam o apego e o luto, tentando nos poupar do sentimento que hoje compreendo como um dos mais nobres da vida humana. Na precariedade daquela época, os pets já serviam de pontes afetuosas entre pessoas próximas ou não. Os pequineses, sempre debruçados na janela, eram ícones daquele cenário. Pareciam bonecas namoradeiras, à espre...

O guardião do jardim secreto

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Existem imagens que não apenas habitam a memória, mas fundam em nós um território sagrado. No passado profundo da minha infância em Curvelo, nenhuma sentinela era tão imponente quanto aquele leão de pedra. Sentado sobre o pedestal que coroava a pilastra do portão, ele não era apenas um adorno dos anos 1930; era o guardião absoluto de um mundo que se escondia atrás dos muros de um casarão na arborizada Avenida Antônio Olinto. Havia um espelhamento de realeza ali: dois leões, um em cada coluna, vigiando a entrada daquela moradia que, aos olhos de uma criança de imaginação fértil, abrigava um jardim de inverno repleto de segredos enterrados. Para mim, aquele pequeno grande ornamento não perdia em glória para os quatro leões de bronze da Trafalgar Square, em Londres; era o meu marco atemporal, um ícone de pedra encravado no coração do sertão mineiro. Lembro-me das histórias que minha mãe contava sobre um velho personagem da cidade. Ele caminhava até ali, detinha-se diante das feras estátic...