Uma galáxia na cabeça

 

Desde a simplicidade de uma placa de “aberto” na porta de uma loja até a densidade monumental de Guerra e Paz, de Liev Tolstói, a linguagem escrita é o máximo da nossa expressão. Independentemente da forma, toda escrita nasce de um sistema complexo de impulsos elétricos que percorre bilhões de células nervosas da nossa massa cinzenta.

O quilo e meio de cérebro humano, descrito por cientistas como a obra mais engenhosa e sofisticada do planeta Terra, levou milhões de anos para ser construída e refinada. É, literalmente, uma galáxia que carregamos dentro da caixa craniana. Apesar disso, há quem ache que atravessamos tempos de incerteza para essa maravilha natural em nossas cabeças.

Com a ascensão meteórica da Inteligência Artificial (IA), surgem rumores de uma substituição avassaladora do ato de raciocinar, especialmente o de escrever, pela automatização. O espírito do menor esforço, a busca pela velocidade e o desejo de parecer mais eficiente criam uma ilusão de que podemos terceirizar o pensamento. Não creio ser possível.

Antes de aprofundar no tema, sublinho que nunca devemos abdicar do exercício diário da escrita. Escrever é manter o corpo e a mente saudáveis; é o registro preciso de quem somos e de como percebemos o mundo ao nosso redor. É, acima de tudo, o que continua a enriquecer o nosso patrimônio linguístico e a roteirizar diversos engenhos.

A história humana foi assentada sobre o papel. A Bíblia moldou gerações e sistemas de fé e de pensamento; os clássicos da literatura serviram como espelhos para o autoconhecimento de todas as sociedades; e a transmissão de conhecimento técnico nos trouxe até aqui — inclusive ao ponto de criarmos a própria disruptiva IA. Escrever é evoluir.

A criatividade humana, esse motor da evolução, baseia-se em um tripé que as máquinas ainda lutam para replicar – a abertura para o novo (incluindo o erro), o repertório pessoal e, por fim, o desprendimento em combinar coisas que não têm ligação aparente. Dotar chips desse “procedimento de alma” e esse apreço pelo risco criativo deve levar muito mais tempo do que sugerem os entusiastas do Vale do Silício e os profetas do caos.

O mais fascinante é notar que, mesmo na era das superinteligências quânticas, o mundo da ciência ainda se curva à maravilha do cérebro. Na Austrália, empresa desenvolveu computadores à base de neurônios vivos, que processam mais dados com uma fração da energia de um chip comum.

Por outro lado, figuras como Elon Musk buscam "turbinar" essa galáxia cortical com interfaces cérebro-computador e até cogitam o download da consciência para corpos artificiais. Em ambos os casos, a conclusão é a mesma: a superioridade e a eficiência do cérebro humano são o padrão ouro. Ainda não dá para competir com ele.

Que essa admiração pelos nossos próprios gênios e o reconhecimento das nossas faculdades únicas nos mantenham vigilantes. A redenção da humanidade continua ancorada em seu espírito e naquilo que a natureza nos presenteou de forma exclusiva.

Escrever não é apenas gerar texto, É manifestar a luz dessa galáxia interna que nenhuma máquina, por mais veloz que seja, conseguiu apagar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Guerra fiscal

A pioneira TV Itacolomi

Jato da Mulher-Maravilha: nada a ver