Postagens

Está servido?

Imagem
A lembrança da comida caseira lá dos distantes anos 1970 e 1980 ainda me traz saudade e água na boca. Na sala de jantar da minha infância e adolescência em Curvelo, no sertão mineiro, a família se reunia todo santo dia para as refeições, com o sabor especial e o saber sofisticado do que então nos parecia trivial. Sobre a mesa, com forro estendido e descansos de panela feitos de peças de madeira trançada, pousavam fumegantes preciosidades gastronômicas, comuns a praticamente todos os lares da cidade. Sempre houve couve e outras rimas para nos fazer partilhar do mesmo paladar e de certo orgulho doméstico. O cardápio regular do almoço trazia arroz branco, feijão carioca ou tutu, folhas refogadas, mandioca frita ou cozida e amanteigada, bife de boi ou porco, quiabo que baba, batata-doce, cará ou inhame, repolho, farinha de mandioca, frango na panela de pressão, torresmo, maionese com ovo cozido, linguicinha e farofas. Tudo feito na banha. Antes de esses pratos renderem mexidos e mexi...

Meu bat-amigo da TV

Imagem
  Cresci em Curvelo, sertão de Minas, numa época em que imaginação carecia de pouco para ganhar asas. Foi ali, aos oito anos, em 1978, que conheci meu primeiro herói de carne, capa e boas maneiras: o Batman da televisão, vivido por Adam West. Ele chegou à minha infância em preto e branco, pela TV Philips da sala, antes da telinha em cores da Telefunken, nos anos 1980. Mesmo sem o colorido vibrante que marcaria a estética da série, tudo ali parecia mágico. O canal era o 4 da TV Itacolomi, afiliada mineira da extinta Rede Tupi, quase sempre no mesmo bat-horário sagrado: 11h da manhã, pouco antes do almoço. Era uma corrida contra o relógio para não perder Batman e Robin escalando prédios e esmurrando bandidos. Depois, já no fim da Tupi, o seriado migrou para a associada da Bandeirantes em Minas, aparecendo no fim da tarde ou início da noite, entre 17h20 e 18h30. Mudou o bat-canal e o bat-horário, mas a devoção era a mesma. Não sei ao certo como foi a sensação primeira ao ver aquel...

O conde e o príncipe

Imagem
Sílvio Ribas Eles precisam ser lembrados. Sempre.  Raimundo Martins dos Santos, o Diquinho — conhecido entre amigos como Conde , apelido que remetia tanto à sua elegância pessoal quanto a uma associação afetiva com o ator americano Cornel Wilde —, e André Carvalho, a quem chamo aqui de Príncipe , por ter herdado do pai, o professor Claudovino de Carvalho, não apenas a erudição, mas uma devoção quase aristocrática à língua portuguesa, são duas figuras indissociáveis da história do jornalismo em Curvelo. Foram eles os criadores da Curvelo Notícias , a CN — revista que mais tarde se transformou em jornal tabloide, mantendo o mesmo nome. Por mais de 50 anos, aquela publicação foi a principal referência noticiosa da cidade. Mais do que isso: tornou-se o maior repositório da memória coletiva curvelana ao longo de décadas. Ali estão fatos históricos, acontecimentos triviais de famílias, curiosidades saborosas e registros fundamentais da vida local. É por essa razão que faço questão de ...

Crases e crateras

Imagem
Faz Tanquinho, Faz Água Branca, Faz Buriti… As placas avisavam, sem cerimônia nem ponto final de abreviatura no meio, que ali havia uma fazenda. “Faz”, assim mesmo, seco e direto, como quem apontava para o fazer de algo à venda. Para quem ia de Belo Horizonte à minha Curvelo, sobretudo após passa r Paraopeba, o significado involuntário soava poético. Sempre me diverti com essas e outras marcas pitorescas do caminho: bancas improvisadas vendendo queijo embrulhado em pano de cozinha, doce em barra, rapadura, redes penduradas, andarilhos silenciosos à beira da pista, matagais invadindo o acostamento e, claro, placas. Muitas placas. Algumas mais criativas do que deviam, sem pedir qualquer licença. Como tanta gente fazia — e ainda faz — em fins de ano e férias, viajei inúmeras vezes de carro para rever a família na cidade natal. Pela BR-040 afora e por outras tantas estradas secundárias, encontrava invariavelmente uma das grandes assombrações do interior mineiro entre as décadas de 1970...

Quando Minas debateu a Educação

Imagem
Guardo com nitidez rara a lembrança de ter participado, ainda aluno do primeiro grau, do Congresso Mineiro de Educação de 1983. Eu era adolescente, estudante da então sétima série da Escola Estadual Interventor Alcides Lins, e mal podia imaginar que estava vivendo uma daquelas experiências que nos atravessam para sempre. O evento foi promovido pelo governo de Tancredo Neves , o primeiro governador de Minas eleito pelo voto direto desde o início do regime militar, e carregava, já na origem, um forte sentido de reencontro do país com a democracia. Coordenado pela Secretaria de Estado da Educação, então comandada por Octavio Elísio , o congresso nasceu do acúmulo das lutas dos movimentos sociais e, sobretudo, dos trabalhadores da educação. O documento Educação para a Mudança sintetizava esse desejo coletivo de revisão profunda do ensino público em Minas. Hoje, olhando em retrospecto, tenho a dimensão do que aquilo representou: um verdadeiro mutirão cívico-pedagógico, que transformou o de...

Santo Antônio: um rio à margem

Imagem
As histórias de muitas cidades começam à beira de um rio. Em Curvelo (MG), não foi diferente: o nascimento urbano se deu junto ao Ribeirão Santo Antônio. Ainda assim, para mim, ele sempre foi um estranho íntimo, presente e ausente ao mesmo tempo, alguém que correu ao lado da minha vida sem jamais ser devidamente apresentado, apesar da proximidade insistente de suas margens silenciosas. A imagem mais nítida que guardo desse personagem oculto é a curva que ele desenha ao contornar o Hospital Santo Antônio, exatamente onde nasci, no fim do s agora distantes anos 1960. O “rio” da cidade acabou reduzido a referência de esgoto a céu aberto, trecho temido por doenças, esconderijo de marginais e até palco de assombrações sussurradas. O ribeirão esteve sempre ali, a poucas ruas da casa onde cresci, cruzando a BR-135 e depois a 259, passando rente ao velho hospital e seguindo até o bairro Bandeirantes. Um fio d’água persistente, quase invisível, que atravessava a cidade enquanto nós atravessáv...

Vida pública na escola

Imagem
Foi lá em 1982, na sexta série do chamado primeiro grau, que fiz um ensaio inicial de cidadania e exercício da vida pública. Na querida Escola Estadual Interventor Alcides Lins, da minha sertaneja Curvelo (MG), experimentei ainda criança as emoções de uma campanha eleitoral, com tudo o que ela tem de sonho, mobilização e disputa honesta pelos corações e mentes dos eleitores. Fizemos política no sentido mais nobre e essencial. O alvo do nosso engajamento era a diretoria formada por estudantes de diferentes classes do Centro Cívico Irmã Raimunda Marques, identificado em crachás e editais espetados nos quadros de feltro com a sigla CCIRM. Para nós que nos candidatamos a esses postos, o grêmio estudantil não era símbolo de autoridade, mas sim o laboratório de civismo e de serviço responsável à comunidade. Criamos a chapa UBC — Unidos pelo Bem Comum, nome que parecia traduzir as nossas aspirações de meninos e meninas que já vislumbravam algum propósito maior da vida em sociedade. A caminh...