O ferrinho do dentista
Sílvio Ribas Na nossa Curvelo quente e empoeirada dos anos 1970 e 1980, tínhamos um compromisso que nos tirava o sono: a consulta ao odontologista. Naquele tempo, a liberdade para consumir doces era total e a higiene bucal, relativa. O resultado era inevitável, a sentença doméstica do “tem de ir ao dentista”. Tratar dos dentes naquela época era encarar um pequeno canteiro de obras dentro da boca. Com ou sem raios x, os orçamentos previam procedimentos longos e listava nomes técnicos que nos assustavam: obturação, polimento, bloco e extração. Implantes e próteses modernas ainda eram uma raridade. O que dominava a cena odontológica era o temido ferrinho do dentista — o instrumento metálico, comprido e frio que o profissional empunhava sobre nossa cabeça recostada. Só de ver o objeto dava arrepios. Para completar, a trilha sonora do zumbido da broca entre o esmalte do dente e a tecnologia. Curvelo tinha muitos dentistas conhecidos e reconhecidos. A maioria tinha consultórios nos p...