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O guardião do jardim secreto

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Existem imagens que não apenas habitam a memória, mas fundam em nós um território sagrado. No passado profundo da minha infância em Curvelo, nenhuma sentinela era tão imponente quanto aquele leão de pedra. Sentado sobre o pedestal que coroava a pilastra do portão, ele não era apenas um adorno dos anos 1930; era o guardião absoluto de um mundo que se escondia atrás dos muros de um casarão na arborizada Avenida Pedro II. Havia um espelhamento de realeza ali: dois leões, um em cada coluna, vigiando a entrada daquela moradia que, aos olhos de uma criança de imaginação fértil, abrigava um jardim de inverno repleto de segredos enterrados. Para mim, aquele pequeno grande ornamento não perdia em glória para os quatro leões de bronze da Trafalgar Square, em Londres; era o meu marco atemporal, um ícone de pedra encravado no coração do sertão mineiro. Lembro-me das histórias que minha mãe contava sobre um velho personagem da cidade. Ele caminhava até ali, detinha-se diante das feras estáticas, ol...

O pior filme que passou no Cine Virgínia

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Sílvio Ribas   Assistir a um bom filme no Cine Teatro Virgínia era um ritual mágico na Curvelo (MG) dos anos 1970 e 1980. O imponente cinema, orgulho local, reunia gerações em torno da sétima arte. Vi ali clássicos memoráveis, sempre com olhos brilhando e guloseimas no colo.   Curiosamente, o que mais ficou na memória foi o pior filme já exibido no Virgínia. Odisseia nas Estrelas (1979), produção italiana de baixo orçamento, era tão ruim que se tornou cult. Inspirado no sucesso de Star Wars, é um desfile de presepadas. A trama mostra a Terra sendo leiloada em algum lugar da galáxia e arrematada pelo vilão Kress, de rosto quadriculado, que quer escravizar a humanidade. Sua nave domina facilmente as defesas terrestres, capturando humanos para trabalho forçado em massa.   Sem saída, autoridades recorrem ao professor Mauri, que reúne grupo improvável com militares, cientistas, um ginasta e um casal de robôs toscos, Tilt e Tilly. A missão é invadir a nave inimiga com ...

O ferrinho do dentista

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Sílvio Ribas Na nossa Curvelo quente e empoeirada dos anos 1970 e 1980, tínhamos um compromisso que nos tirava o sono: a consulta ao odontologista. Naquele tempo, a liberdade para consumir doces era total e a higiene bucal, relativa. O resultado era inevitável, a sentença doméstica do “tem de ir ao dentista”. Tratar dos dentes naquela época era encarar um pequeno canteiro de obras dentro da boca. Com ou sem raios x, os orçamentos previam procedimentos longos e listava nomes técnicos que nos assustavam: obturação, polimento, bloco e extração. Implantes e próteses modernas ainda eram uma raridade. O que dominava a cena odontológica era o temido ferrinho do dentista — o instrumento metálico, comprido e frio que o profissional empunhava sobre nossa cabeça recostada. Só de ver o objeto dava arrepios. Para completar, a trilha sonora do zumbido da broca entre o esmalte do dente e a tecnologia. Curvelo tinha muitos dentistas conhecidos e reconhecidos. A maioria tinha consultórios nos p...

A insalubridade jornalística

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Sílvio Ribas A combinação de foco permanente em assuntos palpitantes, estresse contínuo sob a pressão dos horários, concorrência profissional acirrada, longas jornadas e frequente desleixo com a vida pessoal criou, para o jornalista de outros tempos — em especial entre os homens —, um terreno fértil para o surgimento de doenças. O alcoolismo vinha à frente, quase sempre acompanhado do tabagismo e de toda a cadeia de enfermidades que dele decorrem. O tema ainda carrega certo tabu, mesmo depois da profunda transformação das redações, que passaram de ambientes hostis à saúde para espaços mais confortáveis e adequados às exigências do trabalho moderno. Não foram poucos os colegas talentosos e brilhantes que tive o privilégio de conhecer e com quem trabalhei, ceifados pela insalubridade acumulada daqueles anos. Perdas silenciosas, quase sempre naturalizadas à época. Iniciei minha carreira no fim dos anos 1980, integrando uma geração de transição entre os que escreviam em máquinas de escreve...

Pinceladas nas ruas e estradas

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  Sílvio Ribas Sempre enxerguei algo de milenar e místico nos desenhos ornamentais das carrocerias de caminhão. Quando era menino de calças curtas em Curvelo, no sertão mineiro, contemplava os suaves traços pintados à mão livre nos cercados de madeira de veículos pesados como um misto de arte rupestre e arabescos em azulejos.  Esses detalhes que dão graça ao curralinho das cargas são, contudo, uma prova do sofisticado grafismo popular brasileiro. A prática da chamada filetagem, que consiste em pinceladas precisas, finas e delicadas – os tais filetes – segue desfilando pelas ruas e rodovias, levando aos olhos atentos e distraídos ornamentos abstratos, florais e outras formas da natureza. Tudo ameaçado de extinção devido ao domínio das carrocerias de metal, que não servem de suporte para a decoração típica, e, ainda, pelo avanço de padronizações que ocupam justamente o espaço da pintura. Grafiteiro ancestral, o filetador segue tradição nascida nas canoas, carroças e carrua...

Está servido?

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A lembrança da comida caseira lá dos distantes anos 1970 e 1980 ainda me traz saudade e água na boca. Na sala de jantar da minha infância e adolescência em Curvelo, no sertão mineiro, a família se reunia todo santo dia para as refeições, com o sabor especial e o saber sofisticado do que então nos parecia trivial. Sobre a mesa, com forro estendido e descansos de panela feitos de peças de madeira trançada, pousavam fumegantes preciosidades gastronômicas, comuns a praticamente todos os lares da cidade. Sempre houve couve e outras rimas para nos fazer partilhar do mesmo paladar e de certo orgulho doméstico. O cardápio regular do almoço trazia arroz branco, feijão carioca ou tutu, folhas refogadas, mandioca frita ou cozida e amanteigada, bife de boi ou porco, quiabo que baba, batata-doce, cará ou inhame, repolho, farinha de mandioca, frango na panela de pressão, torresmo, maionese com ovo cozido, linguicinha e farofas. Tudo feito na banha. Antes de esses pratos renderem mexidos e mexi...

Meu bat-amigo da TV

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  Cresci em Curvelo, sertão de Minas, numa época em que imaginação carecia de pouco para ganhar asas. Foi ali, aos oito anos, em 1978, que conheci meu primeiro herói de carne, capa e boas maneiras: o Batman da televisão, vivido por Adam West. Ele chegou à minha infância em preto e branco, pela TV Philips da sala, antes da telinha em cores da Telefunken, nos anos 1980. Mesmo sem o colorido vibrante que marcaria a estética da série, tudo ali parecia mágico. O canal era o 4 da TV Itacolomi, afiliada mineira da extinta Rede Tupi, quase sempre no mesmo bat-horário sagrado: 11h da manhã, pouco antes do almoço. Era uma corrida contra o relógio para não perder Batman e Robin escalando prédios e esmurrando bandidos. Depois, já no fim da Tupi, o seriado migrou para a associada da Bandeirantes em Minas, aparecendo no fim da tarde ou início da noite, entre 17h20 e 18h30. Mudou o bat-canal e o bat-horário, mas a devoção era a mesma. Não sei ao certo como foi a sensação primeira ao ver aquel...