Crases e crateras

Faz Tanquinho, Faz Água Branca, Faz Buriti… As placas avisavam, sem cerimônia nem ponto final de abreviatura no meio, que ali havia uma fazenda. “Faz”, assim mesmo, seco e direto, como quem apontava para o fazer de algo à venda. Para quem ia de Belo Horizonte à minha Curvelo, sobretudo após passa
r Paraopeba, o significado involuntário soava poético.

Sempre me diverti com essas e outras marcas pitorescas do caminho: bancas improvisadas vendendo queijo embrulhado em pano de cozinha, doce em barra, rapadura, redes penduradas, andarilhos silenciosos à beira da pista, matagais invadindo o acostamento e, claro, placas. Muitas placas. Algumas mais criativas do que deviam, sem pedir qualquer licença.

Como tanta gente fazia — e ainda faz — em fins de ano e férias, viajei inúmeras vezes de carro para rever a família na cidade natal. Pela BR-040 afora e por outras tantas estradas secundárias, encontrava invariavelmente uma das grandes assombrações do interior mineiro entre as décadas de 1970 e 1990: a crase fora de controle. Uma praga gráfica, invasiva, capaz de brotar nos lugares mais improváveis, como se fosse mato depois da chuva.

Crase, vale lembrar, vem do grego e significa fusão, encontro de sons. A gramática tomou o termo para designar a união de dois “as” — um que termina uma palavra e outro que começa a seguinte — marcada pelo discreto acento grave. O fenômeno é a crase; o risquinho é só o sinal.

Mas isso era detalhe demais para as placas rodoviárias da época, que exibiam, sem pudor: “Posto à 1 km”, “Retorno à 100 m”, “Trevo à 300 m”. Cem metros, como se sabe, não pedem artigo. E mesmo que pedissem, seria “aos”, nunca “à”. Ou seja, ali não havia fusão alguma, apenas excesso de zelo ortográfico muito mal direcionado.

Para completar o quadro, as crases não viajavam sozinhas. Tinham sempre a companhia fiel das crateras — nome mais do que justo para aqueles buracões capazes de engolir pneus, sacudir suspensões e testar a fé do motorista. Valas, rachaduras, valetas, barrancos improvisados e outros relevos indesejáveis compunham o cenário.

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