Vida pública na escola

Foi lá em 1982, na sexta série do chamado primeiro grau, que fiz um ensaio inicial de cidadania e exercício da vida pública. Na querida Escola Estadual Interventor Alcides Lins, da minha sertaneja Curvelo (MG), experimentei ainda criança as emoções de uma campanha eleitoral, com tudo o que ela tem de sonho, mobilização e disputa honesta pelos corações e mentes dos eleitores. Fizemos política no sentido mais nobre e essencial.

O alvo do nosso engajamento era a diretoria formada por estudantes de diferentes classes do Centro Cívico Irmã Raimunda Marques, identificado em crachás e editais espetados nos quadros de feltro com a sigla CCIRM. Para nós que nos candidatamos a esses postos, o grêmio estudantil não era símbolo de autoridade, mas sim o laboratório de civismo e de serviço responsável à comunidade.

Criamos a chapa UBC — Unidos pelo Bem Comum, nome que parecia traduzir as nossas aspirações de meninos e meninas que já vislumbravam algum propósito maior da vida em sociedade. A caminhada até as urnas do pleito foi inventiva, quase profissional: distribuíamos pequenas flâmulas de cetim vermelho com a sigla UBC, presas aos bolsos dos apoiadores com alfinetes, como se fossem bottons de verdade. Olha aí o marketing político.

Tocamos outras estratégias inovadoras para a época e o ápice daquela aventura de uma dúzia de alunos candidatos foi a participação no programa de Orlando Cardoso, na Rádio Clube de Curvelo — a primeira vez em que dei uma entrevista na vida. A filha dele, companheira de nosso time de democracia, declarou ao microfone, com a segurança que me faltava: “Nós vamos ganhar.” E ganhamos mesmo, com estrondosa votação.

Como presidente do centro cívico, sob a coordenação da dinâmica professora de português Maria das Graças — a Cota —, mergulhei num cotidiano idealista que hoje parece algo pueril. Distribuíamos cartões comemorativos em datas religiosas e patrióticas, montávamos cavaletes com mensagens, organizávamos exposições de trabalhos escolares, pequenas atividades recreativas e até eventos esportivos. Tudo simples, mas cheio de sentido.

Eu, que tinha enorme dificuldade para discursar, contava com o talento do nosso orador oficial, Stanley Mariz — hoje um líder religioso na região metropolitana de Belo Horizonte. Inteligente, simpático e dono de uma leitura impecável, ele dava voz aos nossos projetos, encantava plateias e ajudou a conduzir a chapa tanto à vitória quanto ao bom andamento do mandato. Era o meu pequeno grande tribuno.

No ano seguinte, disputaria novamente a presidência — não sei sequer se houve chapa adversária. Mas lembro claramente da sensação de que estávamos fazendo algo valioso, maior que nós mesmos. Anos depois teria outra experiência parecida, também em Curvelo, como presidente da ONG Corporação Organizadora do Desenvolvimento Cultural, a Codec.

O melhor de tudo aquilo, olhando em retrospecto, é perceber que foi ali, nos corredores da Alcides Lins, que germinou o meu gosto por cobrir a política como jornalista e como cidadão. Curiosamente, na faculdade, não participei de diretórios acadêmicos. Entre flâmulas de cetim, discursos tímidos e programas de rádio, descobrimos que a cidadania começa cedo — e que, quando bem cuidada, permanece para sempre.

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