A insalubridade jornalística
Sílvio Ribas
A combinação de foco permanente em assuntos palpitantes, estresse contínuo sob a pressão dos horários, concorrência profissional acirrada, longas jornadas e frequente desleixo com a vida pessoal criou, para o jornalista de outros tempos — em especial entre os homens —, um terreno fértil para o surgimento de doenças. O alcoolismo vinha à frente, quase sempre acompanhado do tabagismo e de toda a cadeia de enfermidades que dele decorrem.
O tema ainda carrega certo tabu, mesmo depois da profunda transformação das redações, que passaram de ambientes hostis à saúde para espaços mais confortáveis e adequados às exigências do trabalho moderno. Não foram poucos os colegas talentosos e brilhantes que tive o privilégio de conhecer e com quem trabalhei, ceifados pela insalubridade acumulada daqueles anos. Perdas silenciosas, quase sempre naturalizadas à época.
Iniciei minha carreira no fim dos anos 1980, integrando uma geração de transição entre os que escreviam em máquinas de escrever e os que já se adaptavam à informatização. Nesse mesmo período consolidou-se outra mudança fundamental: o avanço da profissionalização e a melhora gradual das condições de trabalho no jornalismo.
Antes, a redação era um espaço onde não faltavam sinais exteriores do abuso do álcool — colegas que tombavam durante o expediente, vítimas de ataques fulminantes do coração, sem falar nos casamentos desfeitos. Aos poucos, o ambiente foi se aproximando de um posto de trabalho quase “normal”.
Nada disso elimina o afeto pela memória do humor afiado, das figuraças, da boa conversa — inclusive no fumódromo, onde eu ia mesmo sem ser fumante para ouvir e trocar ideias com os mais velhos. Nem tampouco apaga as jornadas etílicas nos bares da vida. Mas os limites foram se impondo, pela consciência coletiva, pelos novos tempos e pela busca da preservação do bem viver.
Naquele período, surgiram campanhas alertando para os efeitos das longas digitações e da má postura, a chamada LER (lesão por esforço repetitivo), com recomendações de pausas programadas, almofadas para os cotovelos e até fisioterapia. Havia também esforços discretos das chefias para apoiar colegas nos casos graves de alcoolismo, além de iniciativas de sindicatos e agentes de saúde.
Em situações
extremas, recordo colegas escondendo garrafas de uísque nas gavetas e bares
improvisados em kombis estacionadas nas esquinas dos prédios dos jornais.
O principal indutor das doenças, creio, estava nas jornadas que avançavam pela noite, com fechamentos de edição após a meia-noite e os intermináveis “pescoções” que varavam a madrugada. Dali, muitos ainda seguiam para uma jornada complementar em bares e restaurantes como o Sujinho e o Mutamba, na capital paulista, ou o Barba Azul e a Cantina do Lucas, em Belo Horizonte. Muita birita até as quatro da manhã. Haja saúde.
A boemia jornalística ainda desperta nostalgia — confesso que em mim também. Mas a revolução silenciosa da saúde veio em boa hora, sem prejuízo algum para a essência do ofício. Pelo contrário. Seguimos podendo ser festeiros, alegres e bons de conversa, sem nos perder pelo caminho, vivendo mais e melhor para contar boas histórias — nas páginas dos jornais e fora delas.

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