Está servido?


A lembrança da comida caseira lá dos distantes anos 1970 e 1980 ainda me traz saudade e água na boca. Na sala de jantar da minha infância e adolescência em Curvelo, no sertão mineiro, a família se reunia todo santo dia para as refeições, com o sabor especial e o saber sofisticado do que então nos parecia trivial.

Sobre a mesa, com forro estendido e descansos de panela feitos de peças de madeira trançada, pousavam fumegantes preciosidades gastronômicas, comuns a praticamente todos os lares da cidade. Sempre houve couve e outras rimas para nos fazer partilhar do mesmo paladar e de certo orgulho doméstico.

O cardápio regular do almoço trazia arroz branco, feijão carioca ou tutu, folhas refogadas, mandioca frita ou cozida e amanteigada, bife de boi ou porco, quiabo que baba, batata-doce, cará ou inhame, repolho, farinha de mandioca, frango na panela de pressão, torresmo, maionese com ovo cozido, linguicinha e farofas. Tudo feito na banha.

Antes de esses pratos renderem mexidos e mexidões para o jantar, apareciam também omeletes de espinafre e bolinhos fritos. À noite, a opção mais leve podia ser um mingau com cubinhos de queijo branco, sopinha de macarrão de letrinhas com batata ou algo saído da velha sanduicheira de fogão.

As iguarias de domingo eram um capítulo à parte: o generoso arroz mexicano com banana e tudo mais, o salpicão de frango, o bolo de carne, o quibe cru de Benjamim Chamone e, conforme a época, o arroz com pequi. Sem falar nas lasanhas de presunto e queijo e nas tortas salgadas.

E as sobremesas? Um espetáculo! Doce de leite da roça, doce de laranja-da-terra, doce de figo, flans e gelatinas e compotas de outras maravilhas, como pêssego em calda. A tortinha de amendoim moído com biscoito maisena era uma preciosidade, assim como os amores em pedaço de dona Arminda.

Claro que, além disso tudo, surgiam as receitas especiais dos velhos cadernos das vovós e as contribuições que parentes traziam para completar ceias e almoços de casamento, primeira comunhão, Natal e Ano-Novo. Meu Deus, que coisas boas! Servido?

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