Meu bat-amigo da TV
Cresci em Curvelo, sertão de Minas, numa época em que imaginação carecia de pouco para ganhar asas. Foi ali, aos oito anos, em 1978, que conheci meu primeiro herói de carne, capa e boas maneiras: o Batman da televisão, vivido por Adam West. Ele chegou à minha infância em preto e branco, pela TV Philips da sala, antes da telinha em cores da Telefunken, nos anos 1980.
Mesmo sem o colorido
vibrante que marcaria a estética da série, tudo ali parecia mágico. O canal era
o 4 da TV Itacolomi, afiliada mineira da extinta Rede Tupi, quase sempre no
mesmo bat-horário sagrado: 11h da manhã, pouco antes do almoço. Era uma corrida
contra o relógio para não perder Batman e Robin escalando prédios e esmurrando
bandidos.
Depois, já no fim da Tupi, o
seriado migrou para a associada da Bandeirantes em Minas, aparecendo no fim da
tarde ou início da noite, entre 17h20 e 18h30. Mudou o bat-canal e o bat-horário,
mas a devoção era a mesma. Não sei ao certo como foi a sensação primeira ao ver
aquele herói “de verdade” na televisão. Só sei que foi um amor instantâneo.
Nada soava estranho ou
exagerado para esse menino do interior. Batman entrou nos meus dias com sua
polidez impecável, seu convite permanente à imaginação e uma galeria
irresistível de vilões, aliados, engenhocas e veículos. Pow! Bam! Zap! Cada
episódio era um espetáculo completo.
Hoje, olhar para os 60 anos
da estreia da série, completados em janeiro último, é perceber como aquela
produção do genial William Dozier atravessou gerações, enfrentou críticas,
inspirou paródias e acabou consagrada como um dos pilares do universo pop, nerd
e camp.
Mais do que isso:
consolidou-se como uma leitura legítima e criativa do personagem criado em 1939
por Bob Kane e Bill Finger. Os elementos se tornaram ícones, Adam West virou um
Batman eterno, e tudo aquilo segue vivo no coração de milhões — agora espalhado
pelo vasto mar digital.
Para mim, aquelas aventuras
da dupla dinâmica mudaram algo por dentro para sempre. Eu assistia sentado no
sofá de alvenaria da casa materna e já começava a empolgação antes mesmo da
música de abertura. A meia hora de show com comerciais seguia no quintal, no
recreio da escola, nas praças de Curvelo. O Batman não ficava restrito à TV. Saltava
para o mundo real.
Havia o Batmóvel e os
bonequinhos da Gulliver, as máscaras frágeis da Trol, os gibis da Ebal —
tesouros de infância. E havia também o lado artesanal da paixão: da máquina de
costura de minha mãe, dona Mary, e das agulhas de tricô de minha tia Haydée
saíram fantasias improvisadas para brincadeiras e matinês de Carnaval.
Jamais esquecerei o bolo do
meu aniversário de nove anos, em dezembro de 1978, com a dupla de super-heróis
mascarados no topo. Era o auge da felicidade.
Não existia a avalanche de
produtos licenciados de hoje, mas existia algo talvez ainda mais bonito: a
criatividade. Cadernos inteiros viravam galerias de desenhos do Batman,
pintados com dedicação de fã mirim. Eu me tornei oficialmente um bat-fã
alucinado. Batmaníaco assumido.
Com o passar dos anos, o
Batman de Adam West ganhou novas camadas para mim. Já não era só o herói
divertido da infância, mas uma aula de humor inteligente, estética ousada e
narrativa que brincava com a própria linguagem dos quadrinhos. Santas
onomatopeias coloridas! Santa agitação juvenil! Santo encantamento que nunca
passou.
Sessenta anos depois da
estreia na telinha americana, aquele Batman segue sendo meu bat-amigo da TV — o
primeiro herói que entrou na minha casa, na minha imaginação e na minha memória
afetiva. E por isso, quão grato sou por esse tempo. Adeus, cidadãos.

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