Pinceladas nas ruas e estradas
Sílvio Ribas
Sempre enxerguei algo de milenar e místico nos desenhos ornamentais das carrocerias de caminhão. Quando era menino de calças curtas em Curvelo, no sertão mineiro, contemplava os suaves traços pintados à mão livre nos cercados de madeira de veículos pesados como um misto de arte rupestre e arabescos em azulejos. Esses detalhes que dão graça ao curralinho das cargas são, contudo, uma prova do sofisticado grafismo popular brasileiro.
A prática da chamada filetagem, que consiste em pinceladas precisas, finas e delicadas – os tais filetes – segue desfilando pelas ruas e rodovias, levando aos olhos atentos e distraídos ornamentos abstratos, florais e outras formas da natureza. Tudo ameaçado de extinção devido ao domínio das carrocerias de metal, que não servem de suporte para a decoração típica, e, ainda, pelo avanço de padronizações que ocupam justamente o espaço da pintura.
Grafiteiro ancestral, o filetador segue tradição nascida nas canoas, carroças e carruagens trazidas da Península Ibérica, replantada no Brasil e espalhada com a arrancada do transporte rodoviário a partir dos anos 1950. Quase sempre em três cores e com padrões simétricos, criados na hora, copiados, adaptados ou vazados em moldes estêncil, os filetes raramente se repetem de modo idêntico: até o dedo que carimba pontinho põe “digital” do autor.
Não sai da minha mente as imagens dos caminhões leiteiros que paravam no Xavante, do vendedor de laranjas na fábrica de gelo e do pessoal que trazia abacaxi do Espírito Santo. Naqueles empoeirados anos 1970 e 1980, tudo pareceria carregar mais autenticidade e respeito. Mas as galerias com essas obras seguem rodando bravamente a céu aberto, sobretudo nas vias de Minas Gerais, estado que concentra a maior malha rodoviária do país.
Um artesão ensina ao outro, nas fábricas, oficinas, postos e entrepostos. Alguns trabalham com carretilhas e filetadores, outros no puro pincel fino, à mão livre, sem guia, como quem assina no ar. Em lugares como grandes centros de carga, há pintores que vivem de fazer de quatro a 10 caminhões por dia, misturando tinta com gasolina. Só no Brasil as carrocerias de caminhão viraram plataforma tão persistente para essa arte. Aplausos!

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