O conde e o príncipe

Sílvio Ribas

Eles precisam ser lembrados. Sempre. Raimundo Martins dos Santos, o Diquinho — conhecido entre amigos como Conde, apelido que remetia tanto à sua elegância pessoal quanto a uma associação afetiva com o ator americano Cornel Wilde —, e André Carvalho, a quem chamo aqui de Príncipe, por ter herdado do pai, o professor Claudovino de Carvalho, não apenas a erudição, mas uma devoção quase aristocrática à língua portuguesa, são duas figuras indissociáveis da história do jornalismo em Curvelo.

Foram eles os criadores da Curvelo Notícias, a CN — revista que mais tarde se transformou em jornal tabloide, mantendo o mesmo nome. Por mais de 50 anos, aquela publicação foi a principal referência noticiosa da cidade. Mais do que isso: tornou-se o maior repositório da memória coletiva curvelana ao longo de décadas. Ali estão fatos históricos, acontecimentos triviais de famílias, curiosidades saborosas e registros fundamentais da vida local.

É por essa razão que faço questão de evocar meus velhos mestres do jornalismo de interior, uma prática cada vez mais rara, sobretudo no papel impresso. Foi com eles que aprendi a valorizar o sentimento de pertencimento, a entender que cantar o canto da aldeia é uma forma legítima — e necessária — de dialogar com a humanidade. Conheci-os também como personagens reais, com qualidades e defeitos, lados luminosos e arestas intrigantes, todos dignos de registro.

Diquinho tornou-se uma espécie de embaixador de Curvelo em Belo Horizonte. Agregava conterrâneos espalhados pelo mundo e acolhia visitantes ilustres da nossa terra. Sua atuação política sempre foi a de quem acreditava no progresso como serviço público. No colunismo social, exercia um verdadeiro voto de louvor aos seus leitores, celebrando pessoas e histórias com enorme generosidade.

Divertia-me observar também seu lado comerciante, barganhando preços e encantando clientes na loja Móveis da Vovó — uma espécie de embaixada informal de Curvelo na capital mineira, onde sempre se encontrava alguém da cidade ou alguém que dela guardava lembranças. Divulgou o nosso torrão como ninguém mais já conseguiu. Como diria Zuzu Angel, "prefiro sair no CN do que no New York Times".

André Carvalho era um gênio. Filho de outro gênio, o professor de português Claudovino, outrora considerado o maior orador do município. Sua vasta cultura foi forjada pela paixão pelas letras e, talvez, intensificada por uma condição de saúde que o manteve longos períodos acamado, cercado de livros e discos. Como outro grande gênio da história — o pintor francês Toulouse-Lautrec —, André se viu limitado por sucessivas fraturas nas pernas, tornando-se uma personalidade gigante em corpo de baixa estatura. Curiosamente, ele chamava Diquinho de "primo por afinidade", por conta dos seis meio-irmãos primos do Conde.

No jornalismo mineiro, foi um revolucionário. Dos tempos heroicos da televisão ao vivo na extinta TV Itacolomy à criação do inovador suplemento infantil Gurilândia, do Estado de Minas. Visitei-o nas ocasiões em que presidiu a Imprensa Oficial, onde também promoveu mudanças importantes, e quando esteve à frente da TV Minas, levando entrevistados para um talk show dele em clima de happy hour, sempre acompanhado do tecladista genial Célio Balona.

Na experiência que tive com o Curvelo Notícias, ainda antes de me formar jornalista diplomado, ajudei Diquinho a fechar várias edições. Mas houve um momento especial: quando André aceitou voltar a colaborar na reformulação do jornal, oferecendo ideias, sugestões e uma nova diagramação. Fiquei impressionado com sua criatividade vibrante. Lembro-me de uma proposta em particular: uma coluna composta por notas iniciadas, cada uma, por uma letra do alfabeto, em ordem. Vinte e seis notas. Um exercício puro de invenção e disciplina. Foi um período curto, mas enormemente enriquecedor. 

Hoje, os dois já não estão entre nós. Diquinho, com seus causos divertidos, seu colunismo generoso e sua personalidade única. André, com seus livros — próprios e de autores que editou na Armazém de Ideias, onde também o visitei — e com a sua trajetória provocadora e por vezes controversa por todos os espaços profissionais que ocupou com relevo. Como jornalista e como curvelano, tenho a obrigação de render homenagens aos dois e de pedir que sejam permanentemente reverenciados.


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