O guardião do jardim secreto


Existem imagens que não apenas habitam a memória, mas fundam em nós um território sagrado. No passado profundo da minha infância em Curvelo, nenhuma sentinela era tão imponente quanto aquele leão de pedra. Sentado sobre o pedestal que coroava a pilastra do portão, ele não era apenas um adorno dos anos 1930; era o guardião absoluto de um mundo que se escondia atrás dos muros de um casarão na arborizada Avenida Antônio Olinto.

Havia um espelhamento de realeza ali: dois leões, um em cada coluna, vigiando a entrada daquela moradia que, aos olhos de uma criança de imaginação fértil, abrigava um jardim de inverno repleto de segredos enterrados. Para mim, aquele pequeno grande ornamento não perdia em glória para os quatro leões de bronze da Trafalgar Square, em Londres; era o meu marco atemporal, um ícone de pedra encravado no coração do sertão mineiro.

Lembro-me das histórias que minha mãe contava sobre um velho personagem da cidade. Ele caminhava até ali, detinha-se diante das feras estáticas, olhava-as brevemente e fazia o sinal da cruz antes de seguir caminho. O que veriam aqueles olhos cansados? Seria o leão a representação do Evangelista Marcos? Talvez ele transportasse a alma de Curvelo para a Praça de Veneza, onde leões alados vigiam colunatas solitárias em um cenário de pura magia. Era um improvável vigia da savana brasileira, o cerrado, em plena vigília sertaneja.

Curvelo sempre foi esse museu a céu aberto, onde o mármore do Cemitério das Palmeiras dialoga com as pastilhas modernistas dos anos 1950 e 1960. Como eterno defensor da nossa "memória em tijolo, pedra e cimento", guardo com carinho o tempo em que, à frente da Corporação Organizadora do Desenvolvimento Cultural (Codec) nos anos 1980, lutamos para que esse acervo não fosse derrubado pelo esquecimento. Pobres gerações futuras. O tempo, esse escultor implacável, impôs outros rumos à cidade. E o velho leão desapareceu da paisagem junto com o seu posto.

Mesmo que os casarões caiam e a paisagem mude, na geografia afetiva da minha alma, o rei das selvas eternizado em pedra continua lá. Ele segue deitado, atento, guardando o silêncio do jardim secreto e observando, com sua paciência mineral, as histórias não escritas que o vento de Minas insiste em soprar.

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