O pequinês namoradeiro

Na Curvelo (MG) dos anos 1970 e 1980, a nossa vida corria calma, simples e envolta em poeira. Os animais de estimação não conheciam os pet shops ou rações caras: viviam do que a cozinha oferecia e do puro afeto. Era um tempo de cuidado rústico dos bichos de casa, dourado na convivência.

Os cães, sentinelas fiéis em portas e quintais, reinavam absolutos. Lembro-me de Kojak, o pequeno vira-lata valente de Dona Arminda, a minha segunda mãe. Preto e branco, ele latia para qualquer carro, até o dia em que o destino foi mais veloz e um motorista o atropelou, tirando um pedaço do coração da tutora. 

Meus pais, receando a dor dessa despedida, nos negaram cães. Temiam o apego e o luto, tentando nos poupar do sentimento que hoje compreendo como um dos mais nobres da vida humana. Na precariedade daquela época, os pets já serviam de pontes afetuosas entre pessoas próximas ou não.

Os pequineses, sempre debruçados na janela, eram ícones daquele cenário. Pareciam bonecas namoradeiras, à espreita do movimento. Além deles tínhamos os pastores alemães como figuras míticas da força policial. Por fim, a vasta vira-latice completava sem pedigree a maior parte da paisagem animal.

Enquanto os gatos faziam serenatas ásperas nos telhados, perturbando o sono de meu pai, passarinhos recebiam um trato cerimonial. Canários e tizius nas gaiolas pediam carícias com confiança, inclinando a cabeça. Eram rituais de delicadeza na qual a paciência ditava a amizade entre o homem e a ave.

Os papagaios eram os cronistas da casa. Na pensão de Arminda, repetiam vozes da Rádio Clube e palavrões. “Dá o pé, louro!” era o mantra que ecoava entre gargalhadas e assobios. Figuras ruidosas, traziam humor às cozinhas, imitando com perfeição o Padre Carvalhaes e o locutor Cumpade Zezinho.

Havia também a fragilidade dos peixinhos em globos de vidro permitidos em meu lar, cujas vidas breves deixavam lições de finitude. Um sucumbiu ao calor de uma tarde intensa; outro saltou para o desconhecido, como se o pequeno círculo de água não bastasse para os anseios. Pequenas grandes tragédias.

Hoje, ao ressuscitar na mente janelas da minha rua, ainda vejo aquele velho pequinês de Maria Amélia Carneiro, esperando por algo que o tempo levou. As criaturinhas zelaram pela memória e me ensinaram que a espera, mesmo sem garantia de chegada, é o que dá sentido aos dias doídos de saudade.

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