O calorzão nosso de cada dia


Sílvio Ribas

Curvelo é uma cidade quente. Bem mais que Belo Horizonte e menos que Montes Claros. Pelo menos essa era a nossa geografia térmica de crianças e adolescentes naqueles escaldantes anos 70 e 80. Vivíamos sob a impressão de que fazia 40 graus quase todo santo dia. E enfrentávamos o calor com roupas, alimentos, casas e costumes de um tempo sem ar-condicionado.

Para mim, a maior prova das elevadíssimas temperaturas da cidade natal estava dentro dos carros estacionados sob o sol inclemente. Uma caneta esferográfica esquecida junto ao para-brisa podia entortar até virar um rabo de porco. Brinquedos de plástico amoleciam. Discos de vinil se deformavam. Entrar num carro depois do almoço exigia coragem: pareciam uma fornalha.

Para quem podia, o jeito era correr que nem índio para os ribeirões ou mergulhar nas piscinas da Praça de Esportes, dos clubes e de poucos lares, ao menos nos fins de semana. Quem não podia esperava pelos meninos vendedores do picolé Sibéria e pelos sucos em frascos plásticos, carregados de açúcar e anilina, que pintavam línguas de vermelho, laranja e roxo. Ah, e os tubinos do sorvete italiano de máquina!

Que delícia eram os banhos de mangueira no jardim ou no quintal. E as imersões nos tanques de lavar roupa, transformados pela imaginação infantil em banheiras. Que espetáculo eram os geladinhos caseiros, feitos em casa ou comprados de vizinhos e amigos por algumas moedas. Não me esqueço dos feitos por Laura Marques, ali perto do Mercado Municipal.

A meteorologia do nosso sertão mineiro estava nas margens do asfalto quente, secava depressa as folhas das árvores, fazia franzir os olhos para enxergar as planícies ao longe e desenhava um colar alaranjado de suor e poeira em nossos pescoços. Também cobrava sua conta: queimava a pele da geração que desconhecia protetor solar e ensinava a virtude da preguiça.

Dá-lhe moringas de barro, limonadas doces feitas na hora, portas e janelas escancaradas até o anoitecer. Bancos e cadeiras saíam das salas e iam para as varandas e até para o passeio, onde os adultos proseavam sob o luar à espera de alguma brisa. Toda casa precisava de ventilador velho e barulhento; todo comércio providenciava os de teto, girando lentamente sobre nossas cabeças. Nem deserto, nem vale verde. Curvelo era calorzão.

Quando o meio-dia estalava no céu, parecia que o astro-rei descia mais um degrau em nossa direção. Havia horas em que jurávamos ouvir o zumbido do mormaço. Sobre os trilhos da ferrovia, as ondas de calor dançavam no horizonte, fazendo o mundo tremer. Não raro víamos senhoras caminhando pelas ruas com seus guarda-chuvas convertidos em guarda-sóis.

Lembro-me com especial nostalgia das filas nos bebedouros da Escola Estadual Alcides Lins, na hora do recreio do turno vespertino. Corredores e galpões de pé-direito alto, pisos de pedra e paredes vazadas por cobogós eram uma arquitetura sábia, feita para o clima. Para as turmas do primário, calções e saias curtos completavam o alívio possível do uniforme.

O calor da manhã atravessava a tarde e muitas vezes invadia a noite. Era também uma desculpa serena para quem quisesse tomar uma cerveja gelada no bar da esquina. A garrafa chegava à mesa coberta pelo seu “véu de noiva”, como diziam da névoa branca que se formava sobre o vidro. Mas bastavam uns minutos na mesinha da calçada para o calor vencer a batalha.

Ganhamos mais conforto, sem dúvida. Mas perdemos a arte coletiva de enfrentar o calor. Por isso, quando penso no calorzão de Curvelo não me lembro só de quanto fazia calor. Lembro-me de quem estava comigo. Essa é a medida da saudade: não graus marcados no termômetro, mas pessoas, lugares e felicidades que o tempo levou e uma tarde quente trazer de volta.

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