Personagens de uma Curvelo

Uma das vantagens de ter nascido no século passado numa cidade do interior é guardar na memória personagens que soam folclóricos, mas que compõem a nossa identidade. Eram pessoas simples, conhecidas por todos, que faziam a paisagem humana tão marcante quanto ruas, praças e igrejas.

Na Curvelo dos anos 1970 e 1980, o meu querido berço mineiro, bastava caminhar pelo centro para encontrar figuras inesquecíveis. Cada qual levava um jeito próprio de viver, um apelido e um ofício. Eles, mesmo sem figurar da História oficial, seguem vivos na lembrança de quem cresceu por ali.

Entre esses personagens estava o homem encarregado de varrer a Praça da Matriz de Santo Antônio e imediações. Para enfrentar o sol impiedoso do sertão, usava um enorme chapéu de palha, que chamávamos de sombrero. Sua alcunha era Mô Fi, porque era assim que se dirigia a todos: “Mô fi...”.

Havia também o velho carroceiro e os seus filhos, que destoavam do tipo físico predominante da cidade. Tinham pele muito clara, cabelos loiros e olhos azuis, lembrando mais as famílias nativas do Sul do Brasil do que do coração de Minas Gerais. Se a memória não me trai, o seu nome era Abel.

Outra presença constante era a do senhor baixo, moreno, grisalho, sempre vestido com batina, embora não fosse sacerdote. Era visto diariamente nas proximidades da Igreja da Imaculada Conceição, no bairro Timbiras. Ele se chamava Mané Jacinto, nome que hoje batiza a rua ao lado daquele templo.

Recordo-me ainda do Baiano. À noite, era lanterninha do Cine Virgínia. Mas durante o dia dividia-se entre serviços de despachante e cobranças. Estava sempre sobre uma bicicleta, com a inseparável pastinha debaixo do braço, cruzando vias com pressa e o conhecimento de cada morador da cidade.

Vieram também à memória Augusto Sapateiro, Ângelo, o homem da Vespa, os antigos choferes de praça, os padres cheios de personalidade, como Carvalhais, as ministras da Eucaristia, o organista das missas e comerciantes que se confundiam com os estabelecimentos. Eles eram almas do cotidiano.

Naquele tempo, as pessoas eram referências locais e afetivas. Talvez seja essa a maior diferença entre aquele tempo e o de hoje. Vivíamos cercados por personagens que não buscavam seguidores ou fama. Eram conhecidos porque pertenciam ao ambiente coletivo, faziam parte da rotina e do lugar.

Sinto enorme saudade daquela Curvelo acolhedora, verdadeira e cheia de tipos humanos inesquecíveis. Quando fecho os olhos, tenho a impressão de ter vivido dentro de uma novela de Dias Gomes ou Mário Prata povoada por personagens maiores que a ficção. Essa cidade continuará eterna para nós.


 

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