Do início ao "sim"
A vida pode ser contada como travessia entre duas palavras. A primeira é o não – da dúvida, do medo, da insegurança, da impossibilidade presumida. A segunda é o sim – da tentativa, da disposição, da coragem de agir apesar de riscos. Entre uma e outra, desenrola-se o que somos e o que realizamos.
Poucas pessoas percebem o quanto suas falas revelam a arquitetura invisível de seus pensamentos. O vocabulário cotidiano costuma estar repleto de pequenas armadilhas verbais que se repetem sem que lhes demos atenção. “Não vai dar certo”. “Mas é difícil”. “Talvez eu não consiga”.
Tais expressões podem soar prudência ou realismo. Em excesso, contudo, tornam-se autossabotagem. O “não” sempre surge antes mesmo da análise de fatos, fechando portas sequer abertas. Já o “mas” serve de constante resistência, freio acionado quando a iniciativa começa a ganhar velocidade.
Temos ainda o “talvez”. Embora útil em certas circunstâncias, ele pode se converter na morada confortável para hesitação crônica. Não raro, grandes projetos morrem sem chegar a existir porque foram sufocados por palavras desestimulantes. “Não”, “mas” e “talvez” precisam ser mais bem cotejados.
Não defendo otimismo ingênuo nem a negação infantil da realidade. Há obstáculos verdadeiros, fracasso concreto e limites a serem reconhecidos. O problema não é enxergar dificuldades, mas decretar a derrota antes de mobilizar recursos disponíveis para evitá-la. É uma diferença fundamental.
Se o realista enfrenta problemas, o derrotista os antecipa. A psicologia tem mostrado como expectativas afetam comportamento. Os que acreditam ser capazes de superar desafios tendem a persistir por mais tempo, a testar mais alternativas e a aprender mais rapidamente com os próprios erros.
O resultado não surge por mágica. Confiança altera ações, que mudam resultados. Crianças que escutam que são capazes, que podem melhorar e que vale a pena tentar desenvolvem maior senso de autonomia. Não são falsas promessas. É saber associar dificuldades a esforço e não à desistência.
A mesma ideia vale para equipes profissionais, empreendedores e líderes de toda natureza. Também em crises pessoais a linguagem executa papel decisivo. Quem enfrenta doença, perda ou revés financeiro não controla as variáveis da situação. Mas pode moldar a forma de dialogar consigo mesmo.
No fim, a distância entre sonho e realização costuma ser menor do que imaginamos. Muitas vezes ela cabe numa só palavra, que marca a passagem da paralisia para a ação, da dúvida para a tentativa e da expectativa para o movimento. “Sim” é essa palavrinha a converter possibilidades em caminhos.

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