Batalha aérea colorida
Entre julho e agosto dos anos 1970 e 1980, os céus de Curvelo viravam o palco de uma batalha aérea tão bela quanto imprevisível. O seu azul seco do inverno mineiro era invadido por dezenas de pipas coloridas, feitas de papel de seda, varetas de bambu, cola e barbante. As pequenas obras de arte flutuavam sobre a cidade.
Os meninos exibiam as suas
criações com legítimo orgulho. Havia papagaios (era assim que chamávamos) de
todos tamanhos e cores, alguns com longas rabiolas que serpenteavam ao vento.
Mamãe sabia fazer umas pipas legais. Vencia não só quem alcançava maior altura
e lá ficava mais tempo, mas também os criativos.
Empinar pipa era um aprendizado
coletivo. Os mais experientes ensinavam os iniciantes a escolher o bambu
correto, equilibrar a armação, amarrar o cabresto e interpretar os caprichos das
correntes de ar. Cada voo bem-sucedido era motivo de comemoração. Cada queda,
uma lição para a próxima tentativa. Simples assim.
Mas os céus não eram apenas
espaço de contemplação. Em certos momentos, transformavam-se em verdadeiro
campo de combate. Como pilotos de caça em guerra imaginária, os garotos
procuravam cruzar as linhas e derrubar os adversários em disputas que mobilizavam
torcidas inteiras nos descampados da cidade.
A arma dessas batalhas era o tal
do cerol, mistura de cola e vidro moído aplicada aos trechos de linha mais
próximos da pipa. O objetivo era cortar o fio rival e fazer a pipa inimiga
perder o comando, despencar ou desaparecer ao sabor do vento. A vitória
provocava euforia; a derrota, resignação e revanche prometida.
O problema era que o mesmo
material capaz de decidir os duelos também representava perigo real. Cortava
mãos, ameaçava motociclistas, feria animais e transformava brincadeira inocente
em risco para gente. Com o passar dos anos, o cerol foi combatido e proibido,
tornando-se lembrança controversa daquela época.
Guardo na memória as tardes na
Praça da Estação, observando o céu povoado por pontos coloridos. O Geraldo
Faria lembra ainda da beira da grota, do campo de aviação e das margens da
linha férrea. Recordo os macetes para ganhar altitude, os puxões precisos para
recuperar sustentação e a torcida de amigos a cada manobra.
Muitas pipas terminaram quebradas
no chão, perdidas no horizonte ou presas em telhados e árvores. Ainda assim,
nada apagou o encanto daqueles voos. Como os próprios papagaios que
desapareciam na distância, aqueles dias partiram com o vento, mas continuam
sobrevoando as nossas lembranças e os nossos corações.

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