Pela janela do crtão postal
Um dos hábitos mais duradouros que cultivei ao longo da vida foi o de colecionar cartões postais. De cada cidade visitada a trabalho ou por turismo, de cada capital onde morei, de cada canto que me despertou encantamento, procurei levar comigo aquela pequena janela de papel.
Era uma forma de garantir que as imagens mais belas, acabadas
e pitorescas daqueles lugares sobrevivessem ao desgaste da memória. O cartão
postal funcionava como um documento afetivo, testemunha de jornadas,
descobertas e emoções. Algo valioso para se guardar.
Os colecionadores costumam dizer que um bom cartão postal não
mostra só um lugar, mas um sentimento. Talvez por isso nunca tenha me limitado
aos vendidos em bancas e lojas de souvenires. Também recolhi os dados por
restaurantes, hotéis, museus e pontos turísticos.
Vieram ainda os promocionais, artísticos, publicitários e até
os que pareciam pequenas obras de arte impressas, reproduzindo peças famosas ou
não. Foram centenas deles, capturados em aeroportos, rodoviárias, livrarias,
galerias e esquinas de muitos países e cidades.
Houve também o tempo em que os cartões viajavam pelos
Correios. Recebi muitos e enviei outros tantos. Antes de a comunicação digital
tomar conta de tudo, eles carregavam notícias, saudades, afetos e descobertas. Como
era legal enviar e receber esses belos postados.
Uma fotografia da Torre Eiffel, uma praia distante ou uma
praça incomum tornavam-se mensageiros de quem estava longe. Hoje, ao observar as
caligrafias envelhecidas, sinto que preservam o que a mensagem instantânea não consegue
substituir: a delicada espera.
Pelas lentes dos fotógrafos e pelo talento dos ilustradores,
levei para casa fragmentos de monumentos, paisagens, costumes, espetáculos,
exposições, filmes, personagens célebres e anônimos. Cada cartão postal, vulgo
post card, configura uma espécie de cápsula emocional.
Ao olhar para eles, não vejo apenas a imagem impressa. Vejo o
calor do dia, o cheiro da rua, a conversa de ocasião, o sabor da refeição, a
surpresa da descoberta. Os meus queridos cartões postais guardaram aquilo que as
muitas fotos pessoais nem sempre conseguiu capturar.
Minha coleção cresceu enquanto foi possível. Após os anos,
passou a dividir espaço com ímãs de geladeira, marcadores de livros e bibelôs
de estante. Ainda assim, os cartões conservaram um prestígio especial: são
arquivos sentimentais, acervos portáteis do que vivi, vi e senti.
Revisitar essas gravuras, juntas ou sanfonadas, provoca uma
alegria difícil de explicar. Todos carregam a mesma capacidade de me
transportar no tempo. Existe orgulho em saber que estive ali, caminhei por ruas,
contemplei paisagens e construí histórias para lembrar.
Ainda alimento o desejo de dar nova vida à coleção. Imagino
cartões transformados em pôsteres, catálogos comentados, encadernados e
ilustrações de livros de memórias. Não são só bens gráficos, mas apoio à
biografia redigida entre aeroportos, caminhos e encontros.
Há exemplares vindos de minha Curvelo natal, de Belo
Horizonte, São Paulo, Florianópolis e Brasília. Outros cruzaram oceanos de tempo
e chegaram da China, da Argentina, dos Estados Unidos e outros lugares que
ajudaram a moldar meu olhar sobre o mundo na longa viagem vital.
Por isso, quando pego os cartões postais, agradeço aos céus
pelas imagens vistas e revistas, pelos trajetos percorridos e pelas mensagens
trocadas. Bem antes de as telas digitais se tornarem onipresentes, foram esses retângulos
de papel que me fizeram guardar meu mundo.

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