domingo, 8 de março de 2009

Remédio contra baixo astral

Essa canzone "Il Mondo", de Jimmy Morandi e famiglia , sempre me endorfinou a alma. Quando precisava elevar meu astral em dias cinza, colocava no CD player a música que anima muito, desde a letra até o som. Vediamo...

Il mondo

No, stanotte amore,
non ho più pensato a te.
Ho aperto gli occhi
per guardare intorno a me.
E intorno a me
girava il mondo come sempre.

Gira il mondo gira,
nello spazio senza fine.
Con gli amori appena nati,
con gli amori già finiti.
Con la gioia e col dolore
della gente come me...

Il mondo,
soltanto adesso io ti guardo.
Nel tuo silenzio io mi perdo.
E sono niente accanto a te.

Il mondo non si è fermato
mai un momento.
La notte insegue sempre il giorno.
Ed il giorno verrà...

Triscaidecafobia

Só este título dá arrepios. Triscaidecafobia é o nome científico para a aversão ao número 13. Trata-se de uma fobia muito comum nos Estados Unidos. Lá, construtores chegam até a omitir o fatídico andar no painel do elevador do arranha-céu. Passam do 12º direto para o 14º. Pincei esse e outros verbetes duma interessante reportagem de capa da Time. A revista pousou nas minhas mãos durante um vôo de Curitiba para São Paulo – a propósito, saiba que não tenho o famoso medo de Oscar Niemeyer e BB King, aquele cantado em verso pelo latino-americano Belchior: o de avião. A lista da publicação nova-iorquina traz ainda mais curiosidades ao me fazer recordar personagens movidos ou descritos por suas fobias.

Ablutofobia, por exemplo, é a doença psíquica do Cascão, personagem de Maurício de Sousa, o Walt Disney brasileiro. O menino sujinho que não gosta de tomar banho treme e se assusta só de ver água. Até o imortal Drácula, o famoso conde vampiro, sofre de mais de uma repulsa: alliumfobia (alho), heliofobia ou fotofobia (sol) e staurofobia (crucifixo). O vertiginoso medo de alturas determina a figura central do filme clássico de suspense Um Corpo que Cai, do mestre britânico Alfred Hitchcok. Igual mal padece o príncipe encantado encarnado por Richard Gere em Uma Bela Mulher. Há ainda um longa-metragem com título explicitamente alusivo a um medo atávico, o Aracnofobia, com ataques de aranhas.

Os traumas geradores de fobias podem, aliás, ser revelados e reciclados facilmente ou não. Em alguns casos, chega a custar horas de psicanálise, hipnose e outras terapias. Há inclusive profissionais que atribuam algumas aversões crônicas a causas ocorridas em vidas pregressas e acolhidas pelo inconsciente. Crenças e especulações à parte, o fato é que dezenas de fobiazinhas de milhões ajudam alguns poucos a ganharem milhões. Desde o detetizador chamado às pressas no meio da noite para restaurar a posse de um lar tomado por uma única barata até os tratamentos mirabolantes a que se sujeitam as vítimas da falacrofobia, o horror que se tem por estar ficando careca.

Na mesma relação da Time encontro algumas repulsas incontroláveis que também soam hilárias, como a alectorofobia (galináceos), coulrofobia (palhaços) e a fobofobia, em outras palavras a fobia da fobia. O medo de se apaixonar, por exemplo, tem o aliterado nome de filofobia. Para os que sentem aquela compulsão por limpeza, podemos achar que convivem com a rupofobia, pois sentem calafrios ao pensar em encarar a sujeira. Ah! Tem ainda quem não suporta parentes. Ele já pode se considerar um singenesofóbo, caso consiga pronunciar em pouco tempo e com rapidez o nome de sua aflição.

Mas nem tudo é estranho no terreno dessas síndromes contra símbolos, coisas ou conceitos. Nos são familiares alguns termos que fomos obrigados a decorar na escola, para exames do primeiro grau. Exemplos? Quem não se lembra do agorafobia, um exemplo clássico de prefixo (agora, praças ou locais abertos e públicos) e sufixo (fobia)? Hidrófobo é outro jeito de se denominar quem contraiu a doença da raiva.

Outras classificações de fobias tornaram-se conhecidas por expressões usadas na literatura ou para descrever posições políticas e sociais, como os xenófobos, quando o indivíduo tem aversão por estrangeiros, e a claustrofobia, aquele mais-que-desconforto em lugares apertados, como túneis e celas de prisão. Só uma maridofobia (trocadilho meu) ou o medo das reações da homofobia manteria quieto no armário, respectivamente, um claustrofóbico ou um homossexual. Embora o nome não seja tão conhecido, muitos manifestam sintomas da odontofobia, o medo do motorzinho do dentista.

Parece haver mesmo fobia pra todo gosto. Desde a de quem rejeita usar roupas (vestifobia) ao avesso à nudez (gimnofobia). Do que se afugenta ao ver mulher feia (cacofobia) ao que não suporta se aproximar de beldades (caliginefobia). Será que agora terei fobofobia? Qual é a sua? Se você chegou até essa linha do texto é porque não tem fobia de almanaque.

O Ovo da Maricota

Março de 1984. Num dia daquele mês, quando era aluno do ensino fundamental em minha terra natal, a mineirinha Curvelo, assisti com muita atenção junto com todos da Escola Estadual Interventor Alcides Lins, nossa “segunda casa”, uma empolgante história contada pelo professor Sebastião Rocha. Famoso como educador e militante cultural, Tião trabalhava como consultor da Secretaria Municipal de Educação.

Estava saindo da infância e entrando na adolescência, mas até hoje me vem à cabeça o “causo” narrado por aquele visitante barbudo aos estudantes de todas as turmas durante a chamada “hora cívica”. Para se ter uma idéia de como a garotada se envolveu com o papo dele, basta dizer que naquela manhã o divertido palestrante nos fez até cantar “Morte e Vida Severina”, trecho da peça de mesmo nome de João Cabral de Melo Neto.

Tião recordou que, no início dos anos 70, numa de suas andanças pelos grotões do Brasil, por meio do Projeto Rondon, que buscava desbravar as mais escondidas e remotas comunidades brasileiras, levando vacinas, educação e noções de saneamento básico, ele e seu grupo se instalaram num arraial isolado do Norte de Minas Gerais, cujo nome não me lembro. Nesse pedacinho de Brasil que o Brasil não conhece, viviam apenas famílias de humildes agricultores, um padre, um farmacêutico e um funcionário dos Correios, além de um agente ferroviário. O médico visitava o singelo povoado só uma vez por mês. Carro raramente passava por suas ruas de terra.

Mas o que mais impressionou aqueles forasteiros patrocinados pela ditadura militar – enfermeiros, educadores, sociólogos e assistentes sociais – foi um ancião que beirava seus 80 anos, embora se mantivesse “firme e lúcido”. Aquela intrigante figura era, sendo as palavras do narrador Tião, uma mistura de pajé e cacique. Seu Geraldinho morava solitário numa casinha, feita de cobre e latão, onde também funcionava seu escritório, seu ateliê e seu consultório.

Ficava deitado por horas na rede, no fundo de sua curiosa morada, diferente de todas as demais na região, normalmente feitas de tijolos de barro e esterco, conhecidos por adobe. Ele descansava, meditava e atendia suas regulares “consultas” de todos os tipos e de pessoas de todas as redondezas. O velho mestre da comunidade dava gratuitamente esclarecimentos desde como era a maneira correta para se tratar do umbigo do recém-nascido até previsões meteorológicas.

É saboroso imaginar a expressão que Seu Geraldinho usava, conforme relato de Tião Rocha, para dar, todo dia, o seu “boletim do tempo”. O ancião virava para o atento ouvinte e dizia, depois de examinar a “testa da serra”, dar um suspiro e olhar para baixo, coisas do tipo: “Vai chover, sim. Mas só amanhã bem cedinho”. Visualizo aquele decano do arraial como uma espécie de Manuelzão que fazia serviço das tradicionais benzedeiras.

A renda de Seu Geraldinho, que não recebia aposentadoria, vinha da venda de suas pequenas esculturas de barro. Como o chão de sua casinha era de terra batida, assim que começava a chover logo escorria sob sua rede a água que amolecia o solo, tornando-o adequado ao seu artesanato. Deitado, retirava aquela massa e com ela moldava bonecos e vasos. “Pra quê ir ao encontro da vida se ela vem até mim?”, filosofava o sábio de cabelos e barba branca sobre o modo como conseguia matéria-prima para suas obras de arte.

Homem de enorme sabedoria popular combinada a um especial talento de prosador, embora fosse analfabeto “de pai e mãe”, Seu Geraldinho tinha sempre na ponta da língua uma explicação para qualquer dúvida ou problema, fundamentando seus argumentos com experiências pessoais, fenômenos “mágicos” da natureza, o folclore e passagens bíblicas. Ele conseguia compor explanações usando do seu imaginário fértil e de idéias de diferentes origens, deixando tudo muito bem claro e entrelaçado.

Mas esse método analítico do velho sertanejo acabou sofrendo um duro impacto. Certo dia chegou o primeiro aparelho de televisão do arraial, que foi instalado pela Prefeitura na pracinha central, como ocorria em vários lugarejos do interior. No meio da comunidade a TV ficava ligada entre 19 e 21 horas e suas imagens em preto-e-branco e com muito chuvisco atingiram em cheio o conjunto de crenças de Seu Geraldinho. Era informação nova demais pro caboclo sabe-tudo. O que fez? Seu discurso foi se adaptando ao que descobria na janela eletrônica e, ao invés de entrar em crise existencial, nosso personagem vivo passou a visitar toda noite a “máquina de fazer doido”.

A televisão grande onde a população assistia de pé se integrou com rapidez ao repertório do doutor em tudo que merecia se saber. Poucos dias depois da “novidade” ter chegado, já se podia verificar a mudança nos ensinamentos de Seu Geraldinho. O mais interessante que lembro do Tião ter citado é quando o velho expôs a sua versão revisada sobre o Dilúvio do Velho Testamento. Explicava: “Ah, o dilúvio foi o seguinte: por riba do céu, existia grandes pedra de gelo. Num dia, duas delas trombaro, sortando faísca, que abriu um buraco no teto da terra. O gelo derreteu e inundou os terreno tudo. A lua, que também era cheia d'água, ficou seca. Aí o Noé já tava com os bicho todo na arca e se salvou. Nisso, os tar astronauta da Apolo 11 aproveitaro o buracão no meio das nuve mode chegá inté a lua”. Vivendo, vendo e aprendendo.

Viagens espaciais, competições esportivas, anúncios de eletrodomésticos, telenovelas e outras dezenas de fatos ligados ao mundo moderno não eram conhecidas daquele Dom Quixote do século XX, mas que passaram a povoar seus sonhos, juntamente com seu arquivo inicial de memórias, cheio de cavaleiros medievais, dragões e raízes milagrosas.

Voltando à história do Tião... No dia de deixar o arraial e partir para outro logradouro, o professor se despediu de todo o pessoal que conheceu, exceto do Seu Geraldinho, que não conseguiu achar. Estando sozinho na estação ferroviária, depois de ter comprado o bilhete para Belo Horizonte, ele aguardava o trem que iria aparecer em meia hora. Nisso, chegava a galopes o velho líder comunitário. Ôoa! Parou e pulou do seu cavalo castanho para se despediu rapidamente de Tião. “Deus abençoe cês tudo, foi um prazer”, dizia. Antes de voltar à cela, porém, o artesão de muitas facetas colocou na mão dele um ovo embrulhado na palha de milho, que retirou debaixo do braço, da axila mesmo. “A maricota acabou de botar, tá inté quente”, lembrou. E partiu também na carreira.

Tião, boquiaberto com a situação inusitada, não entendia o significado de tudo aquilo. Não era possível ter ficado tanto tempo junto daquela gente e não saber o que representada o tal “Ovo da Maricota”. Tião chorou “feito menino”. E o que iria fazer com o ovo? Comeria? Parecia ser um sacrilégio. Guardaria? Iria apodrecer logo numa gaveta. Chocar? Não saberia como. Aí veio a única solução possível naquele momento: aproximou-se do guichê da estação e encostou o pacotinho num canto do balcão, dizendo ao funcionário da Rede: “Moço, vou deixar isso aqui um minutinho, enquanto pego uma coisa ali. Tudo bem?”.

Retomando o choro, ele foi embora e nunca mais voltou àquele lugar e nem teve idéia do que aconteceu com o Seu Geraldinho ou com o presente carinhoso que ele lhe deu. Mas a lembrança daquele idoso lépido e falador e o enigma do ovo de passarinho tão comum naquela paisagem foram junto com Tião, que, acredito, os guardará para sempre.

Uma Cafeteria, Três Corações

Aquela casa vermelha na esquina virou, antes da hora, apenas uma parte do meu passado. Foi uma tradição feita em pouco tempo e que teve um fim ainda mais precoce. Para mim, a notícia do fechamento de A Cafeteria – a eterna Três Corações – no coração da Savassi, para dar lugar à loja da operadora Claro, me atingiu de forma pessoal. Ainda triste com o ocorrido, percebo o quanto me agarrei a esse canto de Belo Horizonte, desde sua inauguração, há nove anos. Conheci lá os donos, os gerentes, os garçons, o barman e toda sorte de convivas. Apesar da crítica geral à qualidade do serviço (leia-se demora no atendimento), a simpatia do lugar ficou para sempre na minha memória afetiva.

As horas felizes na Cafeteria Três Corações consagraram uma conexão especial entre o espaço que fechou as portas no último domingo de outubro e a minha condição de cliente fidelíssimo. Foram tantos encontros, bate-papos memoráveis e ideias anotadas em guardanapos que este texto seria insuficiente ou inadequado para fazer todas confidências vividas lá. Só agora, ao escrever linhas nostálgicas, quase um gesto oficial de despedida, é que surge em minha mente a analogia de três corações. A famosa marca do café inspirada na cidade mineira onde nasceu o Rei Pelé poderia representar uma trindade: eu mesmo, a companhia de mesa e a própria cafeteria. Essa última era o elo entre os dois primeiros.

A boa prosa sempre comparecia. E a paisagem ao redor do estabelecimento era, a meu ver, a melhor de BH. Ponto de chegada para quem flanava nos arredores. Savassiava. Ponto de observação para quem seguia rituais de Roberto Drummond. Ponto de exclamação para quem curtia a noite com cafeína, álcool, fumaça, olhares e um pouco de sereno, caso estivesse do lado de fora. Para mim, foram muitas sessões regadas a Red Label (meu amigo Red, como costumava chamar o uísque companheiro) e de uma intensa vida social. Os dias na conhecida cafeteria da Diogo Vasconcelo, a Praça da Savassi, eram para mim de encontros marcados com amigos de faculdade para almoçar. As tardes de folga e de sábado eram momentos de espírito relaxado e de leitura de jornais e revistas.

Para mim, não podia faltar no cardápio panqueca enrolada, pão de queijo napolitano e, mais recentemente, o sanduíche Kanadani, esse uma receita de Riuiti Kanadani, ex-diretor da Belgo (depois Arcelor Mittal) e assíduo freqüentador do point. Só faltou investir mais em enologia. Os vinhos eram caros e pouco variados. Mas os drinques com café mereceram boas notas. Pelo menos para mim, passou a ser a segunda sucursal mineira da Gazeta Mercantil. Para onde ia entre o suposto fim de expediente e a hora de ir dormir. Também era o lugar da saideira, o último chope da noite ou o café expresso para fechar (Para Nísio, uma trufa de chocolate), quando conseguíamos pegar ainda aberta. Noutras ocasiões, até tentava marcar reuniões em locais diferentes. Mas acabava voltando ao velho endereço...

Excelente centro fomentador de idéias, papos hilários e debates gratificantes, A Cafeteria se tornou, conforme os relatos bem-humorados dos meus amigos, o local do talk-show do Sílvio Ribas. Os entrevistados da noite se revezavam na minha mesa cativa. Podiam ser conhecidos quer eram convidados pelo celular, colegas de trabalho que me acompanhavam no happy-hour ou alguém que acabara de adentrar o recinto para só comprar um maço de cigarros ou fazer uma horinha até encontrar outra pessoa. É... Deixava uma boa parte do meu salário no caixa da Três Corações. Dali para o Táxi e o sono merecido. Até hoje me arrependo de não ter optado pelo clube do uísque e deixar guardado o meu Johnnie Walker.

Descobri com o paulista Ivo Ribeiro, meu chefe de redação da Gazeta Mercantil em Minas, que também compareceu à festa de estréia da cafeteria e só deixou de freqüentar lá quando mudou de Belo Horizonte, o valor da simpatia daquele lugar aconchegante e aberto a todas as tribos, sem que nenhuma delas sobressaísse. Etiqueta parlamentar. Quando fui repatriado para a capital de todos os mineiros, no finzinho de 2002, voltei a dar as caras na cafeteria. Lá volta e meia ocorriam os tais encontros acidentais, com quem passava lá pra fazer uma boquinha ou apenas entrava para ir ao banheiro. “Acho que é uma perda muito grande para o consumidor, pois a praça que ficou consagrada como referência cultural, se virar um centro de telefonia, vai ficar morta depois das sete da noite”, lamentou Cristiano Fonseca, supervisor de Marketing do Café Três Corações no estado, ao jornal Estado de Minas. Endossei e ainda adoço essa opinião.

Parece que A Cafeteria vai ressurgir noutro ponto da Savassi. Mas não será o mesmo ponto, muito menos o mesmo terceiro coração. Uma prova disso? Na minha despedida de Belo Horizonte, em 1998, quando estava de mudança para Florianópolis, ganhei de Wilson, então gerente da época, um kit com xícara e pires com a logomarca tricordiana. Sob olhares de testemunhas, ele me entregou a recordação de forma solene. Em Floripa e em Sampa, para onde fui morar anos depois, elegi as minhas “Cafetererias Três Corações” substitutas. Mas nenhuma dessas tentativas se equiparou à original.

Fiquei muito feliz e orgulhoso em saber quando perguntaram por mim lá depois que me mudei. Também toda vez que voltava à BH, pousava na minha mesa tradicional, onde era tratado como “gente de casa”. Além disso, o lugar cumpria as funções de um café parisiense ou boteco carioca, oferecendo no mesmo lugar convivência, distração, filosofia, e, vá lá, culinária. Tal qual foi o Antonio’s para Tom e Vinícius, o Le Deux Magots para Sartre e Simone de Beauvoir ou o Café Tortoni para Gardel e Borges.

O Café Três Corações, patrocinador de A Cafeteria, mantém um contrato de exclusividade com o dono do local e promete honrar o carinho e a referência do público para fazer ressurgir a marca noutro local. A Claro, por sua vez, estuda criar um espaço de convivência em sua nova loja para servir de link com o passado. Um Café Celular? Talvez. A confirmação da Praça da Savassi como campo de batalha da telefonia móvel na capital mineira, com a presença também ostensiva de Telemig, TIM e Oi, gerou protestos em forma de faixas, abaixo-assinados e depoimentos na mídia. Nos últimos dias de funcionamento do ponto sequer tive coragem de entrar lá para me despedir.

A esquina da Avenida Cristóvão Colombo com a Rua Antônio de Albuquerque não mudou o nome pelo qual ainda era conhecida, quando a marca de café dos mesmos donos foi vendida para um grupo estrangeiro. Acho que assim vai continuar por um tempo. Para definir melhor a minha cafeteria preferida, busco inspiração no Houaiss: “Local público especializado em servir cafés e por vezes outras bebidas, e eventualmente também alimentos que se podem comer rapidamente ou pratos leves”.

A Três Corações era tudo isso e mais. Por isso, longe de ser um testamento, um réquiem, um obituário, esse texto é uma carta de agradecimento a todos que fizeram daquele imóvel um ponto especial no meu tempo e no meu espaço. Uma pausa pro café.

OBS: Era pra ter publicado esse texto há três anos

Foto: Átila Araújo/Google Earth

Mensagem de minha vó paterna

Walmiro, meu marido


por Maria da Conceição Moreira de Sousa (Dona Sinhá)

Vou ver se consigo contar resumidamente o que foi a vida de meu marido, Walmiro de Sousa. Nascemos no mesmo lugar, hoje Conselheiro Mata (MG), e no mesmo ano, 1913. Ele nasceu no dia 10 de agosto. Sua infância foi a de um menino normal. Muito inteligente, desde cedo já gostava de obter suas próprias coisas. Tinha visão e ideias para o futuro. Seu pai, Beraldo de Sousa, era funcionário da antiga ferrovia Vitória-Minas, mais tarde E.F.C.B, como agente de estação. Sua mãe, dona Violeta, era dona de casa, mulher religiosa e de grande fé.

A família constava ao todo nove irmãos. Anos mais tarde, seu pai se mudou com a família para Monjolos, um lugarejo próximo que naquela época explorava madeira. Foi ali que Walmiro entrou para a escola onde freqüentou até o terceiro ano (a última série que havia nas escolas rurais). Empregou-se num armazém onde se demorou pouco, pois visava ter um negócio só seu. Seu objetivo era, a princípio, ter um cavalo. Mas começou adquirindo um carneiro. Ia montado nele pelas roças a comprar e vender ovos. Era sua grande alegria.

Daí começou o troca-troca, comprando uma coisa hoje e outra amanhã. Seu espírito negociador andava pela “Mata” a levar cal e comprar café. Ele adquiriu logo, logo, uma tropa de burros, seu sonho maior. Passou então a viajar, comprando e vendendo lotes de burros. Como a mãe se preocupava muito com essas viagens, Walmiro resolveu mudar de profissão, arrendando um terreno. Estava resolvido a cuidar de lavoura e a engordar porcos.

Tão logo reuniu condições, comprou uma terra. Estava então com 19 anos quando resolveu se casar. Embora fôssemos do mesmo lugar, não nos conhecíamos. Só viemos a nos encontrar em Monjolos, onde vim passar uns tempos com meu irmão. Ele instalara ali uma farmácia e mais tarde (1933) se casou com uma irmã de Walmiro. No ano seguinte ao casamento de nossos irmãos ele também me pediu em casamento.

Nos casamos no ano seguinte, no dia 30 de junho de 1934. Ainda não havíamos completado 21 anos. Fiquei morando em Monjolos enquanto ele cuidava da lavoura. Quando nasceu nosso primeiro filho, Márcio, em 1935, nos mudamos para a roça, onde fiquei um ano. Walmiro estava sempre negociando, sempre comprando umas vaquinhas...

Havia perto uma vila chamada São José dos Altos, onde Walmiro abriu um pequeno armazém, que devagar foi prosperando. Aí nasceu Marcílio, o segundo filho. Mais adiante ele comprou outra propriedade, maior, no qual moramos uns anos. Nesse período, meu marido viajava muito, tratando de seus negócios e eu ficava em casa a cuidar de tudo, já com mais filhos: Walmira (Mirinha), Maurílio, Violeta, Marília e Mauro, todos nascidos nesse lugar.

Com grande sacrifício Walmiro comprou uma área onde havia muita madeira de lei, pagando por ela com a mesma madeira. Os meninos já estavam precisando estudar. Tínhamos que mandá-los para casa dos avós e tios em Monjolos para fazerem o primário.

Tempos depois adoeci com um reumatismo rebelde que nunca consegui curar, não faltando recursos possíveis para tal. Mudamos para a fazenda chamada Gameleira onde construímos uma casa grande, casa de colonos, dois moinhos de fubá, currais, casa de tirar leite, paiol, entre outras coisas. Mais tarde veio a fábrica de rapadura e depois a de cachaça, esta de boa qualidade e muito procurada. Na Gameleira nasceram três filhos: Marta, Conceição e o caçula Marcelo.

Quando os meninos já precisavam de colégio, compramos uma casa em Sete Lagoas (MG), onde ficamos uns tempos: eles estudando e eu tratando o reumatismo, que acabou me pondo numa cadeira de rodas. Walmiro tudo fazia por mim, os maiores sacrifícios, foi uma dedicação sem medir esforços para me aliviar.

Com o passar do tempo, nossos filhos foram seguindo suas profissões. O mais velho se formou em Direito, Maurílio em Contabilidade e os demais quiseram seguir os passos do pai na pecuária. Das meninas, duas se formaram para professora e três se dedicaram a outros trabalhos.

De Sete Lagoas resolvemos voltar para a Gameleira onde ele dedicava a criação de vacas e engorda de bois. A família era o seu orgulho. Ajudava os filhos logo que começavam a se casar, os orientava em tudo e Deus ajudou tanto que todos se encaminharam. Sentindo-se já fatigado e precisando de descanso, resolveu voltar para Sete Lagoas. Lá comprou uma casa. Passávamos uns tempos nela e outros na fazenda.

A capela de Conselheiro Mata estava muito deteriorada e Walmiro mandou fazer uma reforma geral, deixando ela muito bonita. Mostrou sempre o desejo de que, quando falecesse, fosse enterrado em Conselheiro. Muito caridoso, ajudava muito as pessoas necessitadas. Quando a saúde começou a ficar abalada, se dedicava por inteiro aos netos, queria-os sempre perto deles. Ultimamente vivíamos um pelo outro. Seu mal foi se agravando. Nós já tínhamos consciência da gravidade. Ele não queria morrer para deixar a mim, os filhos e os netos.

A nossa dor foi e é grande demais. A lembrança não nos deixa esquecê-lo um só instante. Sua morte foi em Curvelo (MG), mas foi sepultado em Conselheiro Mata, com grande acompanhamento. Isso foi em 20 de outubro de 1985. Ainda continuo na nossa Gameleira, onde tenho ainda a impressão de estar sempre perto dele. Até mesmo enquanto escrevo essa mensagem.

Que Deus, na sua Santa Glória, o tenha e nos conduza na Terra.

Maria da Conceição Moreira de Sousa (Dona Sinhá)
(30.11.13 a 30.11.88)

Walmiro de Sousa
(10.08.13 a 11.10.85)

Porto da Pedra e o poder da criatividade

Confesso que não assisti ao desfile das escolas de samba do Rio do primeiro grupo este ano. Minha folia foi ficar em casa arrumando a bagunça, desligado de tudo. Mas gostei de saber que o enredo escolhido foi a criatividade. E nada mais criativo do que um desfile na Sapucaí. Eles lembraram personalidades como Einstein, Leonardo da Vinci e Santos Dumont na segunda noite do carnaval carioca para responder à pergunta: o que motivou o homem a criar tanto? O enredo “Não me proíbam de criar, pois preciso curiar! Sou o país do futuro e tenho muito a inventar!”, do carnavalesco Max Lopes, foi nota dez para a sua estreia na escola de São Gonçalo.