As manias de meu pai
Em cada par de meias havia, para ele, um pé esquerdo e outro direito. Nunca compreendi como identificava a diferença. As meias eram iguais, mas ele as tratava como gêmeos de personalidades distintas. Se eu trocasse os lados, talvez nada acontecesse no mundo visível. No mundo dele, porém, alguma engrenagem sairia do lugar.
O almoço obedecia a uma liturgia. Primeiro a comida. Depois, meio copo d’água, nem mais nem menos. Em seguida, um golinho de café, o cigarro e, por fim, a soneca. Qualquer tentativa de alterar essa ordem seria tão absurda quanto servir a sobremesa antes do arroz. O ritual não precisava ser explicado. Bastava ser cumprido.
À noite, sofria de insônia. De dia, distribuía pequenos cochilos pelos móveis da casa, como quem paga em prestações uma dívida com o sono. Dormitava na cadeira, no sofá, diante da televisão. Às vezes parecia apenas repousar os olhos. Pouco depois, um ronco discreto denunciava que havia atravessado a fronteira.
Tinha horror de cobras e sapos. O medo não combinava com a imagem de homem firme que cultivava, e talvez por isso se tornasse ainda mais engraçado. Diante de uma serpente, real ou imaginária, toda a sua autoridade recuava alguns metros. Um sapo no quintal era capaz de transformar a casa em área de risco.
Também repetia bordões. Cada situação da vida já parecia possuir uma frase previamente aprovada. Era como se carregasse um arquivo de sentenças prontas para explicar atrasos, desaforos, mudanças do tempo e defeitos humanos. Os ditados saíam com a segurança de quem cita uma lei antiga.
Apesar da disciplina, conservava uma curiosidade infantil. Gostava de fuçar as coisas da casa, abrir gavetas, examinar pacotes, descobrir novidades. A cozinha exercia sobre ele atração especial. Entrava como quem não queria nada, abria um armário, depois outro, levantava tampas e procurava alguma coisa para beliscar. Se fosse surpreendido, fingia estar apenas verificando se tudo estava em ordem.
Durante muito tempo, julguei que esses hábitos fossem apenas excentricidades. Mais tarde percebi que eram também uma forma de defesa. Meu pai organizava o pequeno mundo ao redor para enfrentar o grande mundo, que raramente respeita sequências. A repetição lhe oferecia segurança. O meio copo d’água, o café, o cigarro e a soneca eram suas estacas contra o caos.
Os filhos costumam passar parte da vida tentando não se parecer com os pais. Depois descobrem, com alguma surpresa, que herdaram gestos, frases e pequenos rituais. Hoje me vejo alinhando objetos, desconfiando de mudanças repentinas e repetindo certos movimentos com uma fidelidade que não planejei.
Talvez eu ainda não saiba distinguir o pé esquerdo do direito em um par de meias. Mas compreendo melhor o homem que precisava distingui-los. Seu sistema não pretendia dominar o universo. Queria apenas colocar alguma ordem na casa, no corpo e no dia seguinte.
Quando lembro dele, não me vêm primeiro os
grandes acontecimentos. Vejo um homem terminando o almoço, medindo sem medir
meio copo d’água, tomando um golinho de café e encaminhando-se para a soneca.
Há pessoas que deixam monumentos. Meu pai deixou uma sequência. E toda vez que
ela se repete em minha memória, a casa volta a funcionar.

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