A lancinante dor da Benzetacil

 


Dizem que a Benzetacil é a injeção mais dolorida que existe. Por experiência própria, tendo a certeza disso. Carrego esse trauma de infância, quando de longo tratamento de nefrite, nos anos 1070. Lembro-me do ritual penoso com agulha de base quadrada e ampola de vidro fervidas em caixa metálica.

O injetável leitoso e espumoso em frascos grossos e tampas emborrachadas aterrorizava crianças e até adultos. Será por isso que o nome dele começava com benze? Antes do branco ser injetado, ouvíamos a recomendação de não contrair os glúteos, sob risco de a agulha quebrar e penetrar o corpo.

Poucos medicamentos entraram tão profundamente no imaginário popular brasileiro. Por décadas, bastava ouvir Benzetacil para muita gente lembrar logo da injeção doída, associada às amigdalites e ao temor dos consultórios. Além do folclore, está algo ainda visto como estratégico pela medicina.

O nome comercial mais conhecido do antibiótico benzilpenicilina benzatina, derivado da penicilina, foi criado para agir lentamente e combater certas bactérias. Diferentemente de comprimidos tomados por vários dias, ele tinha ação prolongada e continuava atuando no nosso corpo por semanas.

Associado ao tratamento de amigdalites bacterianas e faringites causadas por estreptococos, serve para muita coisa. Lembro de uma colega minha da Escola Alcides Lins que tomou por anos a velha “benza” como prevenção da febre reumática, que poderia lhe provocar lesões cardíacas permanentes.

Os médicos dizem que a dor intensa vem da injeção intramuscular profunda e pela consistência espessa da medicação. Profissionais de saúde chegam a aplicar anestésico local, como xilocaína, para aliviar o desconforto. “Tomar Benzetacil” virou adágio para sofrimento inevitável ou solução drástica.

Depois de semanas de tratamento, com picadas em casa, na maioria das vezes, e no Hospital Santo Antônio, eu e meu irmão nos curados de uma infecção contraída, segundo especulações, na areia contaminada, palco de brincadeiras. Sobrevivi, mas ficou a lembrança da dor lancinante da injeção.

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