Amor escrito com Paper Mate

 


A Livraria e Papelaria Castro Alves não era só uma loja. Era uma instituição afetiva da Curvelo dos anos 1970 e 1980, um território encantado onde se misturavam papel, tinta, plástico, conhecimento e emoção. Entrar ali era entrar em um mundo de descobertas, sonhos e pequenas felicidades.

A elegância de dona Terezinha Avelar ajudava a compor aquele cenário. Sempre impecável, sorridente e perfumada, ela transformava uma simples compra de folhas pautadas em uma experiência memorável. Muitos ainda recordam o cheiro dos cadernos, livros e embrulhos até chegar em casa.

Situada no coração da cidade, a Castro Alves era mais que ponto comercial. Funcionava como referência cultural e intelectual de Curvelo. Por isso, o seu desaparecimento deixou vazio que jamais foi preenchido, como se uma parte da memória coletiva tivesse fechado as portas junto com a sua vitrine.

Foi ali que conheci uma pequena joia da escrita. Em um universo dominado pelas onipresentes canetas Bic, transparentes e utilitárias, surgia a Paper Mate, a mais sofisticada. Seu corpo amarelo-claro, elegante e discreto, destacava-se pela ponta de identificação da cor — azul, vermelha ou preta.

As Paper Mate eram reservadas para ocasiões especiais. Serviam aos trabalhos escolares mais caprichados, às cartas de amor adolescentes e aos desenhos que exigiam precisão. Havia nelas algo especial, como se escrever deixasse de ser simples tarefa para se tornar ritual de cuidado e expressão.

A escrita era macia, fluida e refinada, mas exigia técnica. Bastava uma pressão exagerada ou um gesto apressado para a tinta borrar o papel. Letras, dedos e até a lateral da mão podiam sair manchados. Talvez por isso escrever com uma Paper Mate parecesse exercício de disciplina e elegância.

A marca carregava ainda um símbolo inesquecível: dois pequenos corações vermelhos presentes nos modelos clássicos. Gravados no clipe ou no mecanismo de acionamento, aqueles dois davam personalidade à caneta e despertavam simpatia imediata. Eram um detalhe simples, mas não banal.

Hoje percebo que aqueles corações resumiam bem o que a Paper Mate representava. Eles davam a ideia de que escrever podia ser ato carregado de sentimento. E talvez por isso tantas lembranças da Castro Alves sigam vivas: nelas há sempre papel, perfume e, sim, muitos pares de corações.


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