As batidas dos sinos da Basílica

 



Crescer na Rua Sete de Setembro, no coração de Curvelo, era viver em um compasso marcado pelo bronze. Eu habitava o intervalo entre dois marcos espirituais – a Matriz de Santo Antônio e a Basílica de São Geraldo. Quando o cair da tarde se impunha, o ar da cidade não apenas esfriava. Ele vibrava.

Os carrilhões começavam o seu diálogo às 18 horas. De um lado, a Basílica majestosa dedicada ao santo italiano tão venerado pelo nosso povo; do outro, a Matriz, casa do real padroeiro do município, o português no qual enxergava fortes conexões da alma de Portugal em meu berço sertanejo.

Para muitos, o toque dos sinos, seguido do som da Ave Maria, de Bach, era sinal de que a jornada terminava. Para mim, aquele era o som da melancolia incontornável — sentimento crepuscular partilhado pelo amigo Nixon Diniz. Eram badaladas do poema “Ó Sino da Minha Aldeia”, de Fernando Pessoa.

Soando dentro de minh’alma, os repiques se fundem ao cenário de sombras que se alongavam pelas calçadas e vidas. Havia tristeza mansa na luz que se esvaía, luto diário pelo dia que não voltaria mais. O som dos sinos parecia carregar saudade dos que já se foram, como “dobre de finados” dos antigos.

Cada pancada metálica era lembrete da fragilidade de nossas esperanças. Elas eram frágeis e, ao chegar da noite, iam adormecer, guardadas para o amanhã incerto. Na Curvelo da minha infância e adolescência (1970-1980), o tempo não era medido por ponteiros, mas pelos assaltos de melancolia.

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