O ferrinho do dentista


Sílvio Ribas

Na nossa Curvelo quente e empoeirada dos anos 1970 e 1980, tínhamos um compromisso que nos tirava o sono: a consulta ao odontologista. Naquele tempo, a liberdade para consumir doces era total e a higiene bucal, relativa. O resultado era inevitável, a sentença doméstica do “tem de ir ao dentista”.

Tratar dos dentes naquela época era encarar um pequeno canteiro de obras dentro da boca. Com ou sem raios x, os orçamentos previam procedimentos longos e listava nomes técnicos que nos assustavam: obturação, polimento, bloco e extração. Implantes e próteses modernas ainda eram uma raridade.

O que dominava a cena odontológica era o temido ferrinho do dentista — o instrumento metálico, comprido e frio que o profissional empunhava sobre nossa cabeça recostada. Só de ver o objeto dava arrepios. Para completar, a trilha sonora do zumbido da broca entre o esmalte do dente e a tecnologia.

Curvelo tinha muitos dentistas conhecidos e reconhecidos. A maioria tinha consultórios nos prédios Virgínia e Levindo, endereços com sugadores e cheiros peculiares de substâncias odontológicas. Subir a rampa do Levindo ou topar a escada do Virgínia era quase um ritual. Santo amálgama!

Rumo à cadeira inclinada nos aguardavam anestesias, algodões e uma luz forte apontada para o rosto, própria de interrogatório policial. A cuba para cuspir lembrava pia de banheiro em miniatura. O tabuleiro de instrumentos era montado com precisão e os tubinhos de xilocaína, prontos para injeções.

Entre os doutores do sorriso que marcaram minha infância está Olga Avelar, que atendia em casa. Ela cuidou de quase toda minha família. Meu pai era a exceção. Antes mesmo dos 40 anos ele já havia perdido todos os dentes naturais. Usar dentadura era algo comum da sua geração sem prevenção.

Outros personagens desse universo residem na mente. Agnelo, que me encheu de vaidade ao elogiar minha arcada, e Luiz Nelson, o rei dos temidos canais —serviço para dente perdido na decadência. Lembro até da ajudante adolescente dele. Saía dali com meio rosto adormecido e a fala enrolada.

A escola de odontologia mais próxima de Curvelo ficava em Diamantina. Foi lá que minha a prima Gláucia Torres se formou no ofício que mistura ciência, técnica e coragem do profissional e do paciente. É. Fui corajoso e sobrevivi ao terror odontológico, com dentes suficientes para contar essa história.

Com novos equipamentos, métodos e drogas, parece ter sumido o trauma do ferrinho do dentista. Apesar de tudo, agradeço aos homens e mulheres de branco e máscara de pano que atuaram na minha boca. Contra cáries e placas, eles salvaram patrimônio dentário e memórias que me fazem sorrir.

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