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Mostrando postagens de fevereiro, 2026

A insalubridade jornalística

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Sílvio Ribas A combinação de foco permanente em assuntos palpitantes, estresse contínuo sob a pressão dos horários, concorrência profissional acirrada, longas jornadas e frequente desleixo com a vida pessoal criou, para o jornalista de outros tempos — em especial entre os homens —, um terreno fértil para o surgimento de doenças. O alcoolismo vinha à frente, quase sempre acompanhado do tabagismo e de toda a cadeia de enfermidades que dele decorrem. O tema ainda carrega certo tabu, mesmo depois da profunda transformação das redações, que passaram de ambientes hostis à saúde para espaços mais confortáveis e adequados às exigências do trabalho moderno. Não foram poucos os colegas talentosos e brilhantes que tive o privilégio de conhecer e com quem trabalhei, ceifados pela insalubridade acumulada daqueles anos. Perdas silenciosas, quase sempre naturalizadas à época. Iniciei minha carreira no fim dos anos 1980, integrando uma geração de transição entre os que escreviam em máquinas de escreve...

Pinceladas nas ruas e estradas

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  Sílvio Ribas Sempre enxerguei algo de milenar e místico nos desenhos ornamentais das carrocerias de caminhão. Quando era menino de calças curtas em Curvelo, no sertão mineiro, contemplava os suaves traços pintados à mão livre nos cercados de madeira de veículos pesados como um misto de arte rupestre e arabescos em azulejos.  Esses detalhes que dão graça ao curralinho das cargas são, contudo, uma prova do sofisticado grafismo popular brasileiro. A prática da chamada filetagem, que consiste em pinceladas precisas, finas e delicadas – os tais filetes – segue desfilando pelas ruas e rodovias, levando aos olhos atentos e distraídos ornamentos abstratos, florais e outras formas da natureza. Tudo ameaçado de extinção devido ao domínio das carrocerias de metal, que não servem de suporte para a decoração típica, e, ainda, pelo avanço de padronizações que ocupam justamente o espaço da pintura. Grafiteiro ancestral, o filetador segue tradição nascida nas canoas, carroças e carrua...

Está servido?

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A lembrança da comida caseira lá dos distantes anos 1970 e 1980 ainda me traz saudade e água na boca. Na sala de jantar da minha infância e adolescência em Curvelo, no sertão mineiro, a família se reunia todo santo dia para as refeições, com o sabor especial e o saber sofisticado do que então nos parecia trivial. Sobre a mesa, com forro estendido e descansos de panela feitos de peças de madeira trançada, pousavam fumegantes preciosidades gastronômicas, comuns a praticamente todos os lares da cidade. Sempre houve couve e outras rimas para nos fazer partilhar do mesmo paladar e de certo orgulho doméstico. O cardápio regular do almoço trazia arroz branco, feijão carioca ou tutu, folhas refogadas, mandioca frita ou cozida e amanteigada, bife de boi ou porco, quiabo que baba, batata-doce, cará ou inhame, repolho, farinha de mandioca, frango na panela de pressão, torresmo, maionese com ovo cozido, linguicinha e farofas. Tudo feito na banha. Antes de esses pratos renderem mexidos e mexi...

Meu bat-amigo da TV

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  Cresci em Curvelo, sertão de Minas, numa época em que imaginação carecia de pouco para ganhar asas. Foi ali, aos oito anos, em 1978, que conheci meu primeiro herói de carne, capa e boas maneiras: o Batman da televisão, vivido por Adam West. Ele chegou à minha infância em preto e branco, pela TV Philips da sala, antes da telinha em cores da Telefunken, nos anos 1980. Mesmo sem o colorido vibrante que marcaria a estética da série, tudo ali parecia mágico. O canal era o 4 da TV Itacolomi, afiliada mineira da extinta Rede Tupi, quase sempre no mesmo bat-horário sagrado: 11h da manhã, pouco antes do almoço. Era uma corrida contra o relógio para não perder Batman e Robin escalando prédios e esmurrando bandidos. Depois, já no fim da Tupi, o seriado migrou para a associada da Bandeirantes em Minas, aparecendo no fim da tarde ou início da noite, entre 17h20 e 18h30. Mudou o bat-canal e o bat-horário, mas a devoção era a mesma. Não sei ao certo como foi a sensação primeira ao ver aquel...