domingo, 19 de abril de 2009

Revigorar os jornais

por Carlos Alberto Di Franco

Os jornais perdem leitores em todo o mundo. Multiplicam-se as tentativas de interpretação do fenômeno. Seminários, encontros e relatórios, no exterior e aqui, procuram, incessantemente, bodes expiatórios. Televisão e internet são, de longe, os principais vilões. Será? É evidente que a juventude de hoje lê muito menos. No entanto, como explicar o estrondoso sucesso editorial do épico "O Senhor dos Anéis" e das aventuras de Harry Potter? Os jovens não consomem jornais, mas não se privam da leitura de obras alentadas.

O recado é muito claro: a juventude não se entusiasma com o produto que estamos oferecendo. O problema, portanto, está em nós, na nossa incapacidade de dialogar com o jovem real. Mas não é só a juventude que foge dos jornais. A chamada elite, classe A e B, também tem aumentado a fileira dos desencantados. Será inviável conquistar toda essa gente para o fascinante mundo da cultura impressa? Creio que não. O que falta, estou certo, é realismo e qualidade.

Os jornais, equivocadamente, pensam que são meio de comunicação de massa. E não são. Daí derivam erros fatais: a inútil imitação da televisão, a incapacidade para dialogar com a geração dos blogs e dos videogames e o alinhamento acrítico com os modismos politicamente corretos. Esqueceram que os diários de sucesso são aqueles que sabem que o seu público, independentemente da faixa etária, é constituído por uma elite numerosa, mas cada vez mais órfã de produtos de qualidade. Num momento de ênfase no didatismo e na prestação de serviços - estratégias úteis e necessárias -, defendo a urgente necessidade de complicar as pautas. O leitor que precisamos conquistar não quer o que pode conseguir na tevê ou na internet. Ele quer qualidade informativa: o texto elegante, a matéria aprofundada, a análise que o ajude, efetivamente, a tomar decisões.

Um amigo gozador costuma dizer-me que a expressão "jornalismo de qualidade" é, hoje em dia, contraditória em si mesma. Outro dia, quis exemplificar-me essa sua opinião. "Veja", dizia, "boa parte do noticiário de política não tem informação. Está dominado pela fofoca e pelo espetáculo. Não tem o menor interesse para os leitores." A cobertura eleitoral, por exemplo, não trata de discutir políticas públicas, mas fica refém do marketing dos candidatos. E o leitor, por óbvio, passa batido. Não encontra reflexão, análise, interpretação, profundidade. O uso de grampos como material jornalístico, por outro lado, virou ferramenta de trabalho. A velha e boa reportagem foi sendo substituída por dossiê. De uns tempos para cá, o leitor passou a receber dossiês que, muitas vezes, não se sustentam em pé. Curiosamente, quem os publica não se sente obrigado a dar nenhuma satisfação ao leitor.

O leitor que confia na integridade dos jornais é o mesmo que em inúmeras pesquisas qualitativas nos envia alguns recados: quer, por exemplo, menos frivolidade e mais profundidade. Tradicionalmente fortes no tratamento da informação, alguns diários têm sucumbido às regras ditadas pelo mundo do espetáculo. Ao atribuírem à televisão a responsabilidade pela perda de leitores, partiram, num erro estratégico, para um perigoso empenho de imitação. A força da imagem, indiscutível e evidente, gerou um perverso complexo de inferioridade em algumas redações. Perdemos a capacidade de sonhar e a coragem de investir em pautas criativas. É hora de proceder às oportunas retificações de rumo. Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do conteúdo.

Só uma séria retomada na qualidade informativa garantirá a fidelidade dos antigos leitores e a conquista de novos. Precisamos mostrar, com fatos e com obras, que os jornais continuam sendo úteis, importantes, um guia insubstituível para a navegação na vida real.

(31 de julho de 2006)

Carlos Alberto Di Franco é diretor do Master em Jornalismo, professor de Ética da Comunicação e representante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra no Brasil, e diretor da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia.

Ponto de vista

Os bares “cult” de BH

Sílvio Ribas

No tema “a cidade que a cidade não vê” podemos incluir os bares mais “cult” de Belo Horizonte, que, infelizmente, são ilustres desconhecidos de quem deveria conhecê-los: artistas plásticos, intelectuais, jornalistas e outras figurinhas da noite. Resta apenas “puglar” tais locais ao seu presumível público-alvo.

Quatro exemplos – retratos fiéis da excentricidade de seus donos – ilustram bem a tese de que a jornada etílica nesta capital centenária pode nos surpreender tanto quanto metrópoles do tipo Sampa e Rio. Enfim, aí está uma pauta quentíssima, que pode gerar muitas fotos e fatos legais e que intrigará como é surpreendente ninguém ter feito tal reportagem até hoje, depois de tanta matéria glorificando BH como “capital mundial dos bares”.

O primeiro e maior dos “cases” propostos, o Loureiro's Bar, da rua Java, na Nova Suíça, já teve muitas configurações criativas. Ponto de interseção entre o lar da família Loureiro e um estabelecimento comercial, a decoração é divertidamente bizarra. Para apenas citar alguns dos ornamentos do bar, lá tem uma piscina (!) dentro.

Nas paredes, retratos antigos, uma cabeça de boi empalhada, símbolos religiosos, mapas escolares, jogos de espadas medievais, entre outras tralhas. Do teto partem frascos plastificados e mensagens moralistas pintadas em vidro. Isso tudo sem contar o cardápio e os costumes nada comuns dos anfitriões, que servem pizza em prato fundo ou podem trazer da geladeira o arroz do jantar.

A fachada não assusta com seus grandes copos de chope em fibra de vidro. Na entrada, a garagem do dono fica ao lado de banheiros unissex, que têm cortinas de contas. Loureiro, o dono, com seu visual “junkie” parece ter chegado da Woodstok nos anos 60 para revelar muitas histórias e as razões de fazer de sua casa-bar um espaço absolutamente exótico. Ah! A churrasqueira do Loureiro’s tem até nome: “Boi nos Aires”.

Encontra-se para vender no local garrafas de pinga e um telefone sem fio pode ser emprestado para ligações locais dos clientes. Um misto de casa com estúdio do programa “Perdidos na Noite”, apresentado por Faustão na Band, Loureiro’s está geograficamente oculto e padece de uma preocupante síndrome do baixo movimento, que poderá forçar o fim de suas atividades.

Outro exemplo é o Pit Bull Café, ambiente francamente “underground” recentemente inaugurado pelo seu dono, o italiano Sergio, de visual roqueiro. Afora a grande bandeira da Itália, o espaço é decorado com poucas trabalhos modernos de artes plásticas e símbolos da cultura americana e inglesa, como Queen e Batman. O Pit Bull tem como emblema o cão que leva o seu nome. Aliás, alguns representantes dessa raça canina “serial killer”, originária da Europa, chegam a circular pelo ambiente. Quem trabalha lá garante que a violência do bicho é intriga da oposição.

Outro bar-cabeça: o Obladi. O “gancho” só pode ser a Beatlemania. O local tem tudo para ser cult: é o último bar do quarteirão do Lulu, na rua Leopoldina. Como o próximo nome sugere, não é aconselhado falar mal dos “Fab Four” no recinto sob pena de ser repreendido por Roberto, o dono. Seus freqüentadores têm a opção de levar seus próprios CDs para serem tocados. O tira-gosto do Obladi é Obladá de bom. Mais alguma sugestão?

Localizado na Praça Estevão Lunardi, no Horto (próximo ao Estádio Independência), temos ainda o Chef Túlio. O proprietário, que empresta o nome ao estabelecimento, é um figuraça. Trajado de bermuda, brinco e indumentária de chefe de cozinha (gorro e capote branco, lembrando personagem da “TV Colosso”), tem profunda cultura culinária. O chef desse inusitado “International Gourmet Restaurant” apresenta pratos engraçados até no nome: lulas crocantes, frango mafioso e por aí vai...


PS: pauta escrita em meados dos anos 1990

Diabo matreiro

Certa vez, o saudoso José Mário Miranda, um doce vovô de minha rua em Curvelo, contou-me uma engraçada estória sobre as “piscinas do inferno”. Segundo ele, no reino das profundezas existem dois castigos básicos, que são colocados como opções aos condenados. Ou se entra numa piscina de água fervente ou noutra de fezes. O diabo ainda fazia uma ressalva: na segunda piscina, a profundidade da nojeira dava no pescoço. Diante do dilema, a maioria optava, então, pela alternativa que considerava a mais suportável ou a menos dolorosa. Só que havia ainda mais um detalhe desconhecido ao "banhista". Após a alma penada acomodar na m* tapando o nariz com os dedos, um engenho começava a trabalhar. A surpresa era a seguinte: uma lâmina afiadíssima se movia por meio de um braço mecânico sobre toda a superfície da bosta, forçando o indivíduo a submergir de cinco em cinco minutos. Sacanagem do coisa ruim!