sexta-feira, 10 de abril de 2009

O pai da gibiteca de BH

ANTONIO ROQUE GOBBO

Gustavo Werneck

Numa noite fria, ele sonhou que era o Tocha Humana e saiu cambaleando pela casa, num ataque de sonambulismo que surpreendeu os pais. Em outra, mais abafada, deu asas à imaginação e voou no foguete de Flash Gordon, em direção ao planeta Mongo, uma viagem absolutamente inesquecível. Na infância em São Sebastião do Paraíso, no Sul de Minas, realidade e fantasia se alternavam no mundo povoado de vilões de cara amarrada e heróis cavalgando pela floresta escura ou defendendo a Terra dos alienígenas, com unhas e dentes, máscaras coloridas, armaduras reluzentes e as melhores intenções. O bancário aposentado Antônio Roque Gobbo, de 72 anos, morador do Bairro do Prado, na Região Oeste de Belo Horizonte, não se esquece nunca das 4,8 mil revistas em quadrinhos que colecionou durante cinco décadas e ainda encantam leitores de todas as idades.

O pequeno tesouro, doado em 1992 à Biblioteca Pública Infantil e Juvenil, no Bairro Santo Antônio, na Zona Sul da capital, é uma das principais atrações do aniversário de 15 anos da gibiteca, comemorados este mês, com a Maratona de Quadrinhos, exposição, filmes, grupos de discussão, oficinas, cultura e diversão. Ao visitar o local, Gobbo disse que valeu a pena cada segundo com as histórias. Como um dos homenageados do evento, com direito a painel na entrada e palavras de elogio, ele se encontrou com vários estudantes entretidos, agora, com as emoções que ainda fazem parte de sua vida.

Antes de qualquer conversa, o aposentado ressalta que nunca foi um colecionador. “Desde criança, sempre compartilhei a leitura das revistas com meus amigos. Colecionador tem um pouco de egoísmo, por isso me considero um admirador, um fanático pelo assunto”, conta, enquanto folheia um livro de capa dura sobre o espacial Flash Gordon, saído da prancheta de Alex Raymond, em 1934. Gobbo não se cansa de enaltecer a criatividade do autor, a beleza e perfeição dos traços da namorada Dale Arden ou marcantes do arquiinimigo, o tirano Imperador Ming. “Olha que maravilha!”, aponta os desenhos com o ardor de um adolescente. Batman é outro personagem que o conquistou, pela sua figura gótica e aparência misteriosa. “É eterno”, declara.

A paixão pelas histórias em quadrinhos (HQs) começou por volta dos 7 anos, num tempo em que televisão era peça de ficção de um futuro quase intergalático. Na então pequena São Sebastião do Paraíso, Gobbo devorava, com apetite voraz, o que encontrava pela frente: Gibi, que acabou se tornando o nome genérico de todas as revistas, Tico-tico, Guri, Mirim e Gazeta Infantil, entre outras. “Elas vinham de São Paulo, mas, ao longo dos anos, fui adquirindo em banca ou alugando”, revela. Mas ninguém pense que o menino ficava o dia inteiro em função desse universo mágico. Nada disso. “Eu comprava escondido. Na época, os gibis eram considerados incitadores de violência, havia muito preconceito, mas a garotada toda lia nos seus esconderijos domésticos ”, lembra.

Gobbo acompanhou a evolução das edições em qualidade e conteúdo. Observou a melhoria da impressão, já que inicialmente eram rodadas em papel jornal, da apresentação das capas, do formato, dos desenhos e da cartela de cores. E viu também as pilhas de revistas subirem pelas paredes na casa de seus pais e depois na sua própria residência, ao lado da mulher e dos cinco filhos. Ninguém nunca reclamou do volume, nem quando a família era obrigada a mudar de cidade, devido ao emprego do pai no Banco do Brasil. “Viajei o país inteiro, até no Rio Grande do Sul morei, sempre carregando caixas e caixas. Montava tudo numa estante e, na hora de partir, desfazia o serviço.“O curioso é que nenhum de seus filhos se interessou por gibis, surpreende-se o aficionado, que também tem sete netos.

Foi em 1985, em BH, que veio a pergunta feita pela mulher Enny: “O que você vai fazer com tudo isso?” Vendo que não tinha sentido ler, guardar ou simplesmente dar, organizou em casa a Biblioteca Nacional de História em Quadrinhos, aberta ao público. Como ela acabou prejudicando a privacidade da família, ele resolveu comprar uma sala que funcionou durante quatro anos, até, finalmente, fazer a doação à biblioteca pública, criando-se a gibiteca. “Livros foram feitos para criar asas e voar de mão em mão”, filosofa Gobbo, que, rato de biblioteca, já lançou seis livros de contos. Na velocidade que vem escrevendo nos últimos 10 anos – “um conto por semana, já tenho 432 prontos” –, pretende chegar aos mil até 2017. História é o que não falta.

INCENTIVO À LEITURA

Interessados pela programação que vai até dia 30 na gibiteca, que guarda uma coleção de 18 mil revistas em quadrinhos de várias épocas e estilos (super-heróis, faroeste, clássicos, álbuns, terror, mangás etc.) Phillip Alberto Azevedo Araújo, de 14 anos, Lucas Ferreira, de 16, Luam Kardec, de 15, Mateus Júnior, de 13, e Nilton Isaac Santos Batista, alunos da Escola Municipal Arthur Versiani Velloso, mantêm os olhos fixos nas publicações. “Nos quadrinhos, a nossa imaginação vai longe. É como se a gente visse um filme e depois lesse a legenda”, compara o sorridente Luam. Phillip diz que as HQs despertam interesse e a vontade de assistir aos filmes nelas baseados. Ao ver a turma reunida, Gobbo só tem um conselho a dar. “Leiam, pois a leitura modifica as pessoas”, resume.

A coordenadora do programa cultural da biblioteca, vinculada à Fundação Municipal de Cultura, Gisela Miranda Ribeiro Alves, diz que a gibiteca de BH é a quarta do país, atrás de São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Nessa temporada, ela indica a exposição Super-heróis visitam a biblioteca, no hall, com muitas curiosidades de figuras como o Homem-Aranha, Quarteto Fantástico e Surfista Prateado, com curadoria da pedagoga Keley Rezende e oficinas conduzidas pelo grupo Tomodachi.

Na entrada, sente-se o clima. Os nomes de Tarzan, Luluzinha, Chiquinho, Tex e outros nacionais e estrangeiros estão escritos no piso, como se dessem as boas-vindas. Hoje e amanhã, a gibiteca ficará aberta das 9h30 às 12h15. O filme Flash Gordon (1980) será exibido hoje (dia 19) às 10h. A biblioteca fica na Rua Carangola, 288 (antigo prédio da Fafich). Telefone (31) 3277-8651. A entrada é grátis.

Fonte: caderno Gerais - Estado de Minas - 19/05/2007

PS: Só para registrar que fui, com muito orgulho, um dos sócios da BNHQ. Lá fiz amizades com outros fãs de quadrinhos e tive a oportunidade de ser o padrinho do casamento entre o espetacular acervo de Gobbo e a Prefeitura de BH. Uma vitória para a cultura na capital mineira.

Reportagem do Zé Grandão

Reproduzo, a seguir, trecho do segundo livro do meu falecido amigo José Roberto Alencar, o Zé Grandão. Ele explica como surgiu uma matéria que fez brilhantemente em minha querida Floripa, meses depois de eu ter saído de lá. Generoso como sempre, ele fez questão de citar no "making of" os colegas que colaboraram com a pauta. Retirei esse texto do blog do professor catarinense César Valente, que também foi colega meu e do Zé Alencar nos tempos gloriosos de GZM.

– “O Panorama Debaixo da Ponte”, gosta?

Não entendi, mas gostei. Sílvio Ribas trabalhou na sucursal mineira da Gazeta Mercantil e, depois, chefiou com muita competência a catarinense. Das duas sobraram pautas que ele não teve tempo de transformar em matérias, em geral gostosas de fazer e saborosas. Por isso, quando ficava sem, eu lhe pedia pautas. Agora, lá estava eu diante da mesa do Sílvio, à cata de outra pauta. E ele me sugeria “O Panorama Debaixo da Ponte”.

– Gostei do título. Detalha.

– É a Hercílio Luz. Debaixo dela, em vez de mendigos, moram bares, restaurantes, agências turísticas, escola náutica, estaleiros, empresas pesqueiras. Dá matéria divertida. Quer?

– Deus lhe pague.

– E por cima dela também passou muita história. O Partido Comunista nasceu na cidade pelas mãos dos seus operários. E lá do alto jogaram no mar os ônibus urbanos de Florianópolis.

Ao voltar para minha mesa, e antes mesmo de pedir aprovação da pauta e da viagem para a chefia, vejo César Valente, editor de Política, dono de um dos melhores textos da imprensa brasileira (e pai de Pedro Valente – geninho da nova geração de jornalistas). César é barriga-verde. Vou falar da pauta e ele me interrompe:

– Foi de lá que a população jogou no mar as jardineiras da Viação Valente, da minha família. Tenho tias em Floripa que podem te contar a história inteira.

Além de me ceder as fontes familiares, César ainda me daria outra sorte: chegaria em Florianópolis no mesmo sábado, junto comigo. Mostrou-me a ilha toda, deu-me uma montoeira de dicas e descobriu que a ONG de sua mulher financiava pesquisas oceanográficas – debaixo da ponte. Ela se encarregou de marcar a entrevista com o pesquisador chefe do projeto, da Universidade Federal de Santa Catarina. De quebra, marcou também com o engenheiro responsável pela Hercílio Luz.

Ficou fácil demais fazer a matéria? Ainda não. Gladinston Silvestrini, repórter da sucursal, tinha outra penca de dicas, um belo arquivo e imensa facilidade para agendar entrevistas. E a vida ficaria ainda mais fácil depois de me encontrar, em Floripa, com Geraldo Hasse, velho amigo e companheiro já nos velhos tempos de Abril e da equipe de Reportagem Especial da Folha de S. Paulo. Geraldo, estudioso, conhecia a história da ponte e do Estreito (ainda hoje o bairro mais populoso de Florianópolis) melhor do que muito professor de História local.

Assim, quando o táxi me deixou na 14 de Julho, no Estreito, na manhã de segunda-feira, já sabia tudo sobre (e sob) a Hercílio Luz. Só não sabia que uma das empresas lá instaladas era, simplesmente, uma das maiores indústrias pesqueiras do país.

PS: Com o título “Debaixo da Velha Ponte, um Rico Panorama”, a matéria foi publicada na Gazeta Mercantil, em 06/08/2001.

GALO GALERIA

O Galo viveu uma época gloriosa entre o fim da década de 1970 e o início da seguinte. Com elenco recheado de craques, levantou o hexacampeonato mineiro entre 1978 e 1983. 1976 - O Atlético foi campeão estadual invicto de 1976. Jogadores: João Leite, Paulo Benigno, Barbatana, Vantuir, Modesto, Ortiz, Silvestre, Ângelo, Danilo, Marcio, Flávio, Toninho Cerezo, Dionísio, Getúlio, Reinaldo, Marinho, Alfredo, Wallace, Marcelo, Paulo Izidoro, Heleno e Marcinho. 1980 - Titulares: João Leite, Orlando, Osmar Guarnelli, Luizinho, Cerezo, Jorge Valença, Pedrinho, Geraldo, Palhinha, Reinaldo e Éder Aleixo. 1982 - João Leite, Nelinho, Osmar Guarnelli, Luizinho, Cerezo e Jorge Valença. Catatau, Heleno, Reinaldo, Renato Queiroz e Éder Aleixo.

Mais reminiscências

Inventário da caixinha de lembranças*

Resolvi abrir e enxugar minha caixinha de objetos memoráveis. Lá hibernava por anos coisinhas várias com função de fazer recordar, desde dois porta-vale-transportes até os meus primeiros relógios de pulso, além da minha dupla dinâmica preferida: um par de bonecos de borracha de Batman & Robin, que enfeitaram o bolo de meu nono aniversário. Vejo que esses bravos heróis de brinquedo escaparam, muito machucados, das dentadas do cãozinho Kojak, de Dona Arminda Marques. Sem recorrer a qualquer metodologia especial, pus-me a relatar o que encontrei na suitcase of memories (como canta Cyndi Lauper em Time after Time). Lembrancinhas de viagens, suvenires do centenário de BH e “munição” de campanhas eleitorais. Presentinhos de aniversário, duas medalhas de honra ao mérito (um concurso de redação e outro do futsal dos calouros da PUC Minas), substitutos idênticos de brinquedos da minha infância mais primitiva (o Falcon fake e aquela zebrinha que se dobra toda sobre o pedestal). Variados bibelôs de mesa, como tatuzinhos de pedra sabão, recuerdos mil de visitas a fábricas, gifts corporativos como canetas diferenciadas, óculos 3D para assistir filmes e o disfarce clássico de óculos com nariz e bigode. A dentadura de Drácula, chaves de apartamentos e locais onde trabalhei (tem até uma com a inscrição “portão principal”). Tem também relíquias de santos italianos e líderes da falecida União Soviética. Alça para segurar canecões de cerveja da Oktoberfest blumenauense. Tampinhas de garrafa com estampas promocionais diversas e uma tampa de rosca prateada de geléia francesa. Nada melhor pra guardar? Artefatos do folclore açoriano de Floripa. Uma rolha de Miolo Seleção – meu vinho preferido. Duas fotos 3 por 4: uma de mamãe e outra da amiga Paty. Medalhinhas de minhas tias-avós ultra-católicas. Mais Batman & Robin em apontadores de lápis, frascos de candies e miniaturas. Canequinho de lata esmaltada (iguais aos da infância de tanta gente), dados verdes para jogar dados, dois pares de lentes de contato de silicone esverdeado, com seus respectivos estojinhos. Uma preservada garrafa-anã de Coca-Cola que encontrei como arqueólogo nos restos de materiais de construção depois de uma reforma. Devia estar sob o piso. Bandeirinhas em papel brilhoso do Brasil e da Itália com seu respectivo suporte comum. Uma das oito figuras de um móbile que fiz no primeiro grau, uma borboleta colorida. Botons do Galo e do Partidão. Tinha também outras coisinhas do Atlético, uma penca de chaveirinhos e um duende barbudo (e intrometido). Figuras de origami de Alexandre, irmão de Dudley Ferrari. Uma cabeça de ET anti-estress (de borracha mole, verde, para amassar na mão). Um pires de saquê. Uma peça de campanha cutista. Aliás, três. Cristais decorativos, moedas de outros países e outras datas comemorativas. Um Pinóquio de pau que se dobra todo, igualzinho à zebrinha de plástico. O trouxe da Itália. Enfeites natalinos de porta, dois dispositivos sonoros de cartões de Boas Festas ainda com bateria boa e tocando jingle bells se der contato, pedras nada preciosas. Na caixinha de lembrança dormia muita saudade. Dos tempos inocentes. Das fases engajadas. Das paixões colecionáveis. Dos sonhos que cabiam no bolso. Vivi 34 dos 2004 anos da Era Cristã.



*Aberta em 14/08/04

Nostalgia pura, muito pura

HELLO! MA BABY (1899)

Hello! ma baby
Hello! ma honey
Hello! ma ragtime gal
Send me a kiss by wire
Baby, ma heart's on fire!
If you refuse me
Honey, you'll lose me
Then you'll be left alone
Oh, baby, telephone
And tell me I'm your own!

Veja mais informações em http://en.wikipedia.org/wiki/Hello%21_Ma_Baby"