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Mostrando postagens de dezembro, 2025

Crases e crateras

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Faz Tanquinho, Faz Água Branca, Faz Buriti… As placas avisavam, sem cerimônia nem ponto final de abreviatura no meio, que ali havia uma fazenda. “Faz”, assim mesmo, seco e direto, como quem apontava para o fazer de algo à venda. Para quem ia de Belo Horizonte à minha Curvelo, sobretudo após passa r Paraopeba, o significado involuntário soava poético. Sempre me diverti com essas e outras marcas pitorescas do caminho: bancas improvisadas vendendo queijo embrulhado em pano de cozinha, doce em barra, rapadura, redes penduradas, andarilhos silenciosos à beira da pista, matagais invadindo o acostamento e, claro, placas. Muitas placas. Algumas mais criativas do que deviam, sem pedir qualquer licença. Como tanta gente fazia — e ainda faz — em fins de ano e férias, viajei inúmeras vezes de carro para rever a família na cidade natal. Pela BR-040 afora e por outras tantas estradas secundárias, encontrava invariavelmente uma das grandes assombrações do interior mineiro entre as décadas de 1970...

Quando Minas debateu a Educação

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Guardo com nitidez rara a lembrança de ter participado, ainda aluno do primeiro grau, do Congresso Mineiro de Educação de 1983. Eu era adolescente, estudante da então sétima série da Escola Estadual Interventor Alcides Lins, e mal podia imaginar que estava vivendo uma daquelas experiências que nos atravessam para sempre. O evento foi promovido pelo governo de Tancredo Neves , o primeiro governador de Minas eleito pelo voto direto desde o início do regime militar, e carregava, já na origem, um forte sentido de reencontro do país com a democracia. Coordenado pela Secretaria de Estado da Educação, então comandada por Octavio Elísio , o congresso nasceu do acúmulo das lutas dos movimentos sociais e, sobretudo, dos trabalhadores da educação. O documento Educação para a Mudança sintetizava esse desejo coletivo de revisão profunda do ensino público em Minas. Hoje, olhando em retrospecto, tenho a dimensão do que aquilo representou: um verdadeiro mutirão cívico-pedagógico, que transformou o de...

Santo Antônio: um rio à margem

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As histórias de muitas cidades começam à beira de um rio. Em Curvelo (MG), não foi diferente: o nascimento urbano se deu junto ao Ribeirão Santo Antônio. Ainda assim, para mim, ele sempre foi um estranho íntimo, presente e ausente ao mesmo tempo, alguém que correu ao lado da minha vida sem jamais ser devidamente apresentado, apesar da proximidade insistente de suas margens silenciosas. A imagem mais nítida que guardo desse personagem oculto é a curva que ele desenha ao contornar o Hospital Santo Antônio, exatamente onde nasci, no fim do s agora distantes anos 1960. O “rio” da cidade acabou reduzido a referência de esgoto a céu aberto, trecho temido por doenças, esconderijo de marginais e até palco de assombrações sussurradas. O ribeirão esteve sempre ali, a poucas ruas da casa onde cresci, cruzando a BR-135 e depois a 259, passando rente ao velho hospital e seguindo até o bairro Bandeirantes. Um fio d’água persistente, quase invisível, que atravessava a cidade enquanto nós atravessáv...

Vida pública na escola

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Foi lá em 1982, na sexta série do chamado primeiro grau, que fiz um ensaio inicial de cidadania e exercício da vida pública. Na querida Escola Estadual Interventor Alcides Lins, da minha sertaneja Curvelo (MG), experimentei ainda criança as emoções de uma campanha eleitoral, com tudo o que ela tem de sonho, mobilização e disputa honesta pelos corações e mentes dos eleitores. Fizemos política no sentido mais nobre e essencial. O alvo do nosso engajamento era a diretoria formada por estudantes de diferentes classes do Centro Cívico Irmã Raimunda Marques, identificado em crachás e editais espetados nos quadros de feltro com a sigla CCIRM. Para nós que nos candidatamos a esses postos, o grêmio estudantil não era símbolo de autoridade, mas sim o laboratório de civismo e de serviço responsável à comunidade. Criamos a chapa UBC — Unidos pelo Bem Comum, nome que parecia traduzir as nossas aspirações de meninos e meninas que já vislumbravam algum propósito maior da vida em sociedade. A caminh...