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Minha pequena sorte grande

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Sílvio Ribas Ao longo da minha vida, certos fatos foram surgindo como sussurros da fortuna — dádivas singelas que me faziam crer no dia em que o destino me brindaria com algo maior. A verdade é que o meu sucesso ocasional em sorteios e jogos de azar em nada mudou os rumos da minha caminhada. Essas alegrias breves compõem a minha pequena sorte grande — esse curioso privilégio de ganhar sem frequência, sem método, só no acaso. E ela começou na minha sertaneja Curvelo (MG), lá nos anos 1980, no ponto mágico da lendária Esquina da Sorte, na borda da Praça Benedito Valadares.  Entre imagens de santos, velas e outros objetos místicos, reinava ali pacificamente o sincretismo brasileiro e a fé cotidiana dos apostadores do jogo do bicho. Minha superstição adolescente se limitava ao trevo de quatro folhas e um a figa de madeira, comprados ali mesmo e sempre no bolso.  Foi aos 12 anos, na Esquina da Sorte, que me ocorreu o primeiro assombro da pequena sorte grande. Na ida para a escola, ...

O terrível encontro de laborfobia e automação

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Sílvio Ribas O avanço da tecnologia costumava ser celebrado como aliado da produtividade e do bem-estar. A cada revolução industrial, a expectativa era de que as máquinas liberassem o ser humano das tarefas mais penosas, abrindo espaço para mais criatividade e significado.  Mas o que observo hoje é uma perspectiva distinta – e perturbadora: o encontro entre duas forças poderosas e terrivelmente complementares – a avalanche de automação guindada pela inteligência artificial e a crescente aversão ao trabalho (laborfobia), sobretudo entre as novas gerações.  O desprezo pela ideia tradicional de trabalho me assusta. Vejo emprego com carteira assinada (CLT) virando sinônimo de mediocridade profissional e exploração até mesmo entre crianças. Sem pudor, trabalhadores, sobretudo do serviço público, queixam-se da rotina presencial, alegando sofrimento psíquico. Cada vez mais jovens mostram desinteresse por jornadas regulares, empregos fixos e estruturas hierárquicas. Muitos preferem vi...

Marcas de Curvelo em nós

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Era uma vez uma cidade que cantava suas glórias no vento, cobria afetos de poeira e tingia o tempo com a cor da saudade. Curvelo, portal do sertão mineiro, celebra neste 2025 seus 150 anos como município. Mas a sua alma tem todas as idades. Lembro como se fosse hoje da festa do centenário. Os céus se abriam em rastro de fumaça, desenhados pela esquadrilha que cruzava o azul profundo. As ruas pulsavam em desfile, no compasso da música e no brilho dos uniformes alinhados.  O orgulho reluzia no rosto de sua gente. E a edição especial de "CN", em formato de revista, guardava aqueles dias como quem embala um tesouro. Meio século depois, Curvelo me chama outra vez para relembrar seus feitos e seus amores.  Atendo ao chamado, listando os marcos que nunca se desataram da mente e do coração, compilados com amigos de infância, no nosso grupo de WhatsApp. Fizemos alguma omissão imperdoável? Talvez. Vejamos nosso Top 10 da saudade. 1. MATINÊ NO CINE VIRGÍNIA -  Sob aquelas luzes...

Meu laboratório de quintal

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Sílvio Ribas As maiores empresas do mundo de hoje nasceram em garagens apertadas, dormitórios estudantis desorganizados e laboratórios universitários de fundos de corredor. Essas gigantes tecnológicas deram os primeiros passos de forma improvisada, guiadas só pelo sonho de jovens empreendedores.  Bem antes dessas histórias de sucesso global, havia também pequenos universos de invenção, onde a imaginação infantil transformava qualquer canto num centro de descobertas. O meu ficava no barracão do quintal de casa, lá na pequena Curvelo (MG) daqueles distantes anos 1970 e 1980. Entre latas de tinta vazias, ferramentas encostadas e cheiro de terra molhada, ali montei “o laboratório”. Sozinho ou com amigos, passava tardes absorto em experiências que misturavam curiosidade e boa dose de improviso. O início dessa aventura foi o kit “Jovem Cientista”, da Estrela. Esse foi o presente inesquecível que ganhei de Natal da querida Cybelle Torres, minha prima engenheira química com carreira na Usi...

Autoridades leves e doces

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Sílvio Ribas Recordo com ternura os meus dias de menino em Curvelo (MG), época em que o respeito e a solenidade permeavam muitos instantes da vida cotidiana, marcados pela presença de autoridades cujos poderes – reais ou meramente simbólicos – se desdobravam em cenas quase ritualísticas.  Naquele universo dos anos 1970 e início dos 1980, os mestres de cerimônia e chefes de trabalhos, com vocábulos pomposos, anunciavam sempre as “autoridades civis, militares e eclesiásticas”, imbuindo os eventos de uma atmosfera de formalidade quase sacra. Admirava ver aquilo tudo. Todavia, o encanto da minha infância residia também no elenco paralelo de personagens, dotados de títulos exuberantes para funções que, embora revestidas de alguma pompa, tinham leveza e doçura próprias. Não eram donos de poder temível, mas protagonistas folclóricos e carismático. Havia generais das bandas, presentes em festas populares e coretos, conduzindo desfiles com graça. Eles eram a personificação da música e da ce...

A diplomacia do fino licor

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Sílvio Ribas Desde que deixei Curvelo (MG) para desbravar o mundo, levo como cartão de visitas um verdadeiro emblema de nossa terra: o fino e renomado licor de pequi. Foi com o inesquecível prefeito Paulo Dayrell que aprendi o gesto diplomático de presentear amigos e colegas de trabalho com o Cristal Brasil – um ato capaz de aproximar corações, abrir portas e iluminar sorrisos, enquanto exalta nossas raízes a cada brinde. Oferecer algo genuíno de nossa cultura é a essência da hospitalidade mineira. E, com o Cristal Brasil, alcançamos um degrau mais alto: encantar os cinco sentidos. Do aroma doce, que lembra a “bala delícia”, como descreveu com carinho uma amiga paulistana, ao tilintar das tacinhas em encontros profissionais e familiares, cada golinho sela amizades e nos faz viajar às origens. Durante anos, autoridades e empresários de Curvelo escolheram essas garrafas sinuosas – que, para mim, remetem à icônica Jeannie dos velhos tempos da TV – como souvenir oficial, um mimo para nobre...

Os muros que nos juntam

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Sílvio Ribas Na minha Curvelo (MG) dos temp os de menino, lá entre os anos de 1970 e 1980, quilômetros de muros pré-moldados de concreto se espalhavam por toda a cidade, como guardiões simplórios de propriedades e famílias.  Presentes em lotes vagos, quintais e depósitos a céu aberto, eles não faziam só barreiras físicas. Suas placas e colunas encaixadas também abraçavam ideias, simbolizavam nosso meio urbano e transmitiam avisos ao povo. Cada um com sua tez acinzentada ou caiada, os muros de cimento armado pareciam ignorar divisões sociais. Junto com as cercas de arame farpado, eles delimitavam áreas, mas também atraíam olhares e corações das ruas. Num arroubo de bairrismo, minha nostalgia pinta aqueles muros de Curvelo como nossos representantes no grupo de edificações icônicas – a Muralha da China, o Muro de Berlim e o que margeia a Wall Street, em Nova York.  Na minha opinião, eles presenteavam Curvelo com uma carga simbólica equivalente à do calçamento pé-de-moleque em Ou...